1.
Durante muito tempo não entendia a razão do meu desconforto em relação ao juiz Carlos Alexandre.
Um desconforto que nunca foi feito de dúvidas em relação à sua seriedade, profissionalismo e retidão – tenho-o como impoluto e sem telhados de vidro.
Não entendia a razão para um desconforto que é quase antipatia ou, se preferires, uma ausência de empatia com a figura.
2.
Nunca o conheci.
Se porventura tal tivesse acontecido, é possível que a minha visão fosse diferente, não sei, é subjetivo afirmá-lo.
Sou amigo de José Marques Vidal, adoro a sua família, tinha uma admiração sem constrangimentos por Joana Marques Vidal, a melhor Procuradora Geral da República que o país poderia ter tido.
E Rogério Rodrigues, especialista em homens assim como o juiz Carlos Alexandre, homens sérios, corajosos e nascidos em lugares inférteis e sem privilégio…
…o Rogério, de quem tenho todos os dias saudades, meu mentor no jornalismo e na vida, seria certamente amigo de Carlos Alexandre.
3.
Então porque não simpatizo com o homem?
Simples: por ser providencial.
Nesta época em que nascem como cogumelos os que se babam com o desejo de que precisamos de pessoas perfeitas e sem pecados, gente melhor do que os melhores, pessoas que vão resolver o problema da aldeia, da cidade, do país ou do mundo…
…temos de estar do lado dos que travam esse desejo infantil.
4.
Carlos Alexandre dominou nos últimos vinte ou mais anos os grandes processos em Portugal.
Liderou as maiores investigações.
Ganhou um protagonismo para lá do sustentável e admissível – um pouco como o Almirante Gouveia e Melo no processo de vacinação ou de Cavaco Silva na sua década de governação.
Na democracia assusta-me sempre quando surge gente assim – podem ser excelentes, inatacáveis, magníficas, mas são pessoas que não são melhores do que o próprio regime que as sustenta.
5.
Por vezes, são elas próprias a esquecer-se disso.
Pela tentação do poder, por uma energia que lhes passa a correr nas veias e que não se explica, um carisma, um fio que julgam divino que os atropela e transforma.
O juiz Carlos Alexandre ocupou um lugar e exerceu um poder legítimo.
Que a cerca altura se tornou, com culpa ou sem culpa alguma, nefasto para a democracia. A justiça, aos olhos da maioria, passou a confundir-se com ele, português sério nascido em Mação, aldeia escalabitana onde apenas viam a luz futuros filhos da pobreza.
6.
Conheço tanta gente com tanta qualidade em Portugal.
Na Justiça também.
Tantos juízes com qualidade que só precisavam de uma oportunidade para se distinguirem.
Desejo muito que Carlos Alexandre tenha o maior sucesso nesta sua empreitada no Serviço Nacional de Saúde – foi uma formidável escolha do governo.
Mas temos todos de nos deixar desta coisa do providencialismo.
Em democracia isso não pode existir.
Quando o alimentamos estamos a alimentar o monstro da irracionalidade.
Que Carlos Alexandre ganhe, mas que apresente ao país os homens e as mulheres com quem trabalha.
A liberdade precisa de autoestima e de quem reconheça o mérito do coletivo, dos que fazem bem, dos que acreditam na excelência, não nos que sonham ser ungidos com uma água benta qualquer.
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