A mulher que foi drogada pelo marido para ser escrava sexual ficará para a história

Gisèle Pelicot tornou-se um símbolo do século XXI. Drogada pelo marido durante dez anos, e oferecida inconsciente a homens para a violarem, tem agitado o mundo com a sua incrível coragem. Tornou-se, aconteça o que acontecer, a cara da guerra contra a violência sexual.

A mulher que foi drogada pelo marido para ser escrava sexual ficará para a história

Gisèle Pelicot tornou-se um símbolo do século XXI. Drogada pelo marido durante dez anos, e oferecida inconsciente a homens para a violarem, tem agitado o mundo com a sua incrível coragem. Tornou-se, aconteça o que acontecer, a cara da guerra contra a violência sexual.

1.

Gisèle é a cara da guerra contra a violência sexual, uma guerra que precisamos de ganhar.

Contra a violência sexual, contra a exploração das mulheres, contra uma desigualdade que continua a existir, agora mais silenciosa, mais envergonhada, mais obscura, mas tão presente como ontem ou há 100 anos.

2.

Gisèle foi drogada pelo marido e serviu de alimento para animais diferentes de todos os outros animais que conhecemos.

Predadores sexuais que se serviam a seu belo prazer do corpo inconsciente que tinham à frente.

O marido recebia dinheiro vivo e em alguns casos, se alguns pervertidos lhe pagassem bem, não se importava de assistir.

3.

Durou dez anos o banquete de horror.

E Gisèle não desconfiava de nada.

Acordava com dores horríveis, dores que se foram tornando piores, mais fundas, uma companhia que passou a existir sempre.

Não falava ao marido das guinadas que sentia por dentro.

E o marido não perguntava.

Na verdade, tinha a coragem de se fazer de vítima – afinal, a mulher estava sempre deprimida, sempre com esgares de dor, nenhum homem aguentaria aquilo, só ele por a amar.

4.

Conhecemos a história.

Tens como eu visto as notícias.

E tens visto como eu a cara de Gisèle no tribunal – os seus olhos corajosos, a sua voz segura, a sua postura feita de um orgulho incrível, um orgulho que nos faz pensar.

Gisèle percebeu que alguma coisa estava mal e a polícia investigou.

O resultado tem sido visto pelo mundo a partir de um tribunal de Avignon…

… 58 arguidos.

Depoimentos chocantes.

Um marido sempre à procura dos cantos onde se esconde sem se poder esconder.

Um marido que assumiu tudo, como se fosse possível assumir o inominável. Olho para aquele homem e só me questiono sobre aquilo que dele não sei e não está a ser julgado.

5.

Mas este postal só foi escrito por causa de uma resposta de Gisèle.

Em frente ao tribunal alguém lhe perguntou qual era o peso da sua vergonha, da sua humilhação.

E Gisèle Pelicot deu a resposta definitiva que terá de ser a nossa quando pensamos nos abusadores, nos que violam, no inferno de estarmos rodeados por tanto mal.

Gisèle, depois de um segundo de silêncio, respondeu:

“Não são as mulheres abusadas que devem ter vergonha. Quem deve ter vergonha são os abusadores, os que violentam. Esses sim, nós não”.

Nada mais precisa de ser dito.

Texto e programa de Luís Osório

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