1.
Quando tinha a obsessão de emagrecer e de ficar outra vez novo, corria dia sim/dia não no Parque das Conchas e dos Lilases, no lisboeta bairro do Lumiar.
Ia pela fresquinha, quer fosse no princípio da manhã ou no início da noite.
Deixei de ir quando o meu corpo se eriçou como se tivesse visto ou ouvido um fantasma.
Na verdade, ninguém me tira da cabeça que ouvi mesmo uma alma penada na última vez que lá fui, há uns dois anos.
2.
Não sabia de nenhuma história, isso foi à posteriori.
No dia em que o meu coração saltou do peito, estava descontraído nos meus passos e respiração quando, nitidamente, como se fosse absurdamente real, escutei um lancinante grito vindo de dentro de uma casa abandonada.
Um grito e um longo gemido, uma voz de mulher que não era bem uma voz, vinha do fundo, da terra, não sendo também bem isso.
Atrevi-me a parar para perceber o que se passava.
O palacete estava em ruínas.
Não se via nada, mas um outro gemido tornou a arrepiar-me dos pés à cabeça.
Pirei-me o mais rápido que pude.
Procurei o guarda e contei-lhe o que ouvira, que talvez alguém precisasse de ajuda.
O vigilante desdramatizou:
“Não ligue, o Palacete Francisco Mantero é uma casa assombrada. De vez em quando, ela aparece, eu não vou lá”.
3.
Fui pesquisar.
E percebi que não fui o único.
Que há muitos relatos, que nos dias das estranhas aparições, até os cães se afastam do lugar com o rabinho entre as pernas e o chichi preso.
Que, ao que se sabe, o dono da propriedade, um dos homens mais ricos do final do colonialismo português, dono de roças em São Tomé e depois Cabinda, trouxera uma mulher negra de África.
Diz-se que era sua amante, talvez tenha sido sua escrava, não sei.
Diz-se também que o “senhor da terra” a prendeu numa jaula durante mais de trinta anos, gaiola onde acabaria por enlouquecer e morrer.
4.
Francisco Mantero, rei do café e do cacau, foi-se em 1928 e Enrique, seu filho tornou-se único herdeiro.
Não teve descendência e deixou tudo à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, quem sabe se para remissão dos pecados do pai…
Não acredito em bruxas, fica bem afirmá-lo.
Mas aqui que ninguém nos ouve, ficando isto só entre nós, que as há, há.
Mesmo!
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