1.
Josefina tem o corpo tatuado e é feliz no que faz.
Não estou a ser preciso, Josefina encontrou um sentido para a vida no que todos os dias passou a fazer.
Antes era contabilista, acordava todas as manhãs e sabia o que a esperava, papéis, números, formulários, rotina.
2.
Se comecei a falar das tatuagens foi por me parecer bastante mais do que um detalhe.
Certamente um preconceito meu.
O de não imaginar tatuagens numa mulher que prepara os mortos.
Uma mulher que os lava e desinfeta, que aspira os fluídos internos, que os conserva sabendo com precisão onde injetar os químicos que travam a inevitável decomposição.
Uma mulher que impede a ascensão da palidez e do gelo no corpo.
Uma mulher que depois penteia os homens e as mulheres.
Os jovens e as crianças.
Uma mulher que disfarça hematomas, marcas da doença ou da desidratação.
Uma mulher que maquilha.
Que veste e alinha.
Que prepara a morte para ser, por uma última vez, vida.
3.
Josefina Cid é uma mulher bonita.
Sorri e faz-nos confiar no seu desarmante sorriso.
Não imaginamos alguém assim quando pensamos numa cave com cadáveres a ser arranjados.
Felizmente, Inês Duarte de Freitas, jornalista do Público, apresentou-ma numa reportagem difícil de esquecer.
A Josefina que encontrou um sentido para a vida numa profissão nobre, a de tratar com respeito e carinho alguém que está a partir.
Carinho pelos que partem, mas também pelos que ficam, pelos fantasmas que esperam, pela memória.
Uma morgue não é diferente de um outro lugar qualquer.
De uma escola, de um hospital, de um aeroporto, de um escritório.
Há bem e mal.
Vida e morte.
Amor e desamor.
Tudo o que é humano está ali.
E há Josefina.
E outras josefinas.
Para quem o trabalho não é assustador ou mórbido.
Apenas a oportunidade de uma derradeira manifestação de respeito pela vida que está ali.
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