1.
Ainda há escolas em que rapazes são proibidos de chorar.
E nos recreios de todas as escolas do primeiro e segundo ciclos há sempre miúdos que gozam com outros miúdos por terem chorado.
Também há pais que se irritam com as lágrimas dos seus meninos… dos seus pequenos homens…
…o choro é para as meninas.
Ou o mais gráfico:
Não sejas maricas.
2.
Os consultórios de psicólogos e psiquiatras estão cheios de gente que foi proibida de chorar quando brincava de calções.
Gente que ficou emocionalmente amputada o que é bem mais grave do que se fossem coxos para sempre.
Chorar não é apenas libertador, é uma regulação do corpo e de tudo o que somos.
As lágrimas que não se choram são canalizadas para a raiva, para o azedume, para o ressentimento.
3.
A determinação e a audácia nada têm a ver com qualquer culto de masculinidade.
Eisenhower chorou no discurso às tropas americanas antes de embarcarem para o Dia D.
Lincoln chorou várias vezes em público, até na partida de um dos seus principais adversários políticos.
Aristides Sousa Mendes, um dos mais corajosos da nossa história, chorou nos dias em que arriscou a vida para salvar a de largas centenas de judeus que não conhecia de parte alguma.
Obama e Mandela choraram à frente dos olhos do mundo.
4.
Jesus chorou com o sofrimento dos familiares do seu amigo Lázaro ou quando viu Jerusalém.
Maomé chorou várias vezes, até quando ouvia passagens do Alcorão.
Plutarco escreveu sobre as lágrimas de Alexandre o Grande, o maior conquistador de todos os tempos.
E na Ilíada e Odisseia, de Homero, os heróis choram constantemente, as lágrimas são a prova irrefutável da humanidade de deuses, semideuses e grandes homens.
Por favor, chora.
Que os teus filhos e netos chorem.
Que os teus rapazes possam ser homens a sério.
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