1.
Anísio estava na Escola Primária Almada de Negreiros, na Alta de Lisboa, e já era um dos reis do recreio.
Jogava à bola no clube do bairro, marcava golos atrás de golos e um dia, com oito anos, os pais e o irmão mais velho levaram-no ao Estádio da Luz para ser visto.
Apanharam o metro no Lumiar, mudaram de carruagem e desembarcaram na estação do Alto dos Moinhos.
2.
O miúdo misturou-se com as outras crianças e sentiu a relva artificial de um daqueles campos de treino ao lado do Estádio da Luz.
Eram muitas dezenas que tentavam a sua sorte.
A maioria equipadas à Benfica, muitas com lanchinhos preparados pelos pais, mas ele, o pequeno Anísio, goleador da escola primária, filho de pais guineenses para quem a vida era difícil, calçara as mais baratas botas que a mãe conseguira comprar no hipermercado e, quando terminou o treino, não tinha suminhos e pão com fiambre do peito…
…mas não lhe faltou o sorriso da mãe, o abraço do irmão, o orgulho do pai e um treinador do Benfica a dizer-lhe…
…Anísio, amanhã conto contigo.
3.
Continuou a frequentar a escola primária no Lumiar e a jogar na rua do bairro social onde, todos os dias, se esfalfavam como se estivesse em jogo a final da Liga dos Campeões.
Miúdos que viam a polícia a cirandar.
Que sabiam da droga, mas também do sacrifício de tantas pessoas sérias que trabalhavam no bairro.
Miúdos no fio do arame, entre o abismo e uma possibilidade de salvação.
4.
Anísio Cabral começou a jogar no Benfica aos 8 anos.
Um sonho que já o era antes de ele nascer quando o pai, que dava uns toques na terra batida de Bissau gritava golo e imaginava ser ponta de lança do Benfica.
O miúdo fez 18 anos na semana passada.
Viveu toda a adolescência no centro de treinos do Benfica no Seixal, foi campeão do mundo de juvenis pela seleção portuguesa e é o menino bonito de José Mourinho que já o comparou a um dos melhores avançados da história, o mítico Didier Drogba.
Nasceu em Lisboa, os pais são de Bissau e brincavam na Avenida Amílcar Cabral e na Praça do Império, muito antes de saberem que um dia viajariam para Portugal.
Muito antes do dia abençoado em que apanharam o metro para o Estádio da Luz com o seu bebé grande e alegre pela mão.
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