1.
Fui um fanático do Championship Manager.
Eu e muitos milhões, o CM chegou a ser o jogo de estratégia mais popular do mundo.
Na minha melhor época de sempre, no Real Madrid, ganhei a Liga dos Campeões com uma equipa de sonho.
Ficava toda a noite acordado e a dependência não fez nada bem ao meu primeiro casamento – quando a mãe dos meus mais velhos me viu a pôr uma gravata por causa da final europeia, percebeu que eu enlouquecera.
Curei-me.
Ou então substitui a maluqueira por outras mais invisíveis.
Devo ter uma pancada forte e felizmente escrevo postais para aplacar os meus mundos alternativos.
2.
Preciso de te contar uma história fabulosa.
A história de Tó Madeira, o mais notável jogador que nunca existiu.
Era o meu número 9 quando ganhei tudo a treinar o Real.
Comprei-o por uma pechincha para jogar no Benfica. E levei-o depois para Madrid onde bateu todos os recordes.
3.
Tó Madeira, naquele ano de 2000, foi o português mais popular do mundo, o mais conhecido nos cinco continentes, o nome que mais vezes foi escrito no Japão, na África do Sul, em Inglaterra, na Índia, na Rússia, na Suécia, na Coreia do Sul, em França…
…bem, já percebeste a ideia.
Tornou-se um ídolo na época 2000/2001 no CM.
4.
O que não sabíamos era que o Tó existia.
Português, de Gouveia.
Estudante de Engenharia Civil, em Coimbra.
Louco pelo CM e escolhido pela administração do jogo para ajudar na listagem das equipas secundárias portuguesas do centro do país.
Fez as listas e incluiu o seu nome colocando valores máximos no remate, na técnica, na velocidade e na energia.
5.
Naquele tempo, não existia o grau de sofisticação e profissionalismo dos anos a seguir.
A internet era frágil e os mentores do negócio recebiam a informação dos colaboradores e introduziam-na sem uma verificação cuidada.
Foi o que sucedeu.
Tó enviou os dados que passaram diretamente para a versão final do jogo, sem verificação.
Ao fim de um mês a falha tornava-se evidente, mas era demasiadamente tarde para a alterar.
6.
Tó Madeira era a alcunha de infância de António Lopes – o homem que se tornou uma lenda.
O avançado perfeito.
O gajo que me fez pôr uma gravata e que quase desfez um casamento com a força dos seus remates.
Um tipo que hoje é um discreto engenheiro, mas aposto que um ídolo entre amigos e milhares de “nerds” presos ao seu passado glorioso passado.
O Cristiano ao pé dele era um menino.
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