1.
A ilegalização do aborto voltou a estar em algumas ordens do dia.
Um tema complexo, fraturante e pouco ou nada óbvio, mas que eu acreditava estar resolvido.
Afinal, não se confirmou o aumento das interrupções voluntárias, como muita gente antecipou – pelo contrário.
Diminuíram as intervenções e multiplicou-se o número de mulheres acompanhadas por médicos, enfermeiros e assistentes sociais.
2.
Para mim, nunca foi um tema linear.
Votei conscientemente pela despenalização, mas depois de muitas leituras e conversas.
Um dos motivos, não o essencial, foi o fanatismo de muitas opiniões pela penalização.
Não que do outro lado não existissem berros de gente cega e endoidecida de tanta certeza, mas do lado mais conservador o grau de loucura inquisitorial ajudou à minha desmobilização.
3.
Impressiona-me a maneira como as pessoas são capazes de fazer juízos de valor.
De julgarem mulheres por terem abortado como se fossem párias condenadas como Tântalo à sede e fome eternas ou ao Inferno de Dante.
Impressiona-me muito ver pessoas a pegar em pedras para as atirarem às pecadoras, assassinas de bebés…
…como se tivessem um contrato assinado com Deus para executar a sua vontade.
4.
Conheço mulheres que abortaram, mas não conheci nenhuma que tivesse passado por isso sem marcas profundas.
É-me difícil imaginar grávidas que tendo abortado continuaram a sua vida como se nada fosse – sei que existem, têm de existir, mas são uma ínfima exceção, não a regra.
As que conheci sofreram muito, sofrem muito.
Continuam a voltar aos lugares e aos dias anteriores.
Continuam a ouvir as ferramentas, a frieza da sala, a absoluta solidão…
…uma delas continua a pôr a mão na barriga como se o bebé tivesse crescido e fosse nascer.
5.
Nenhum de nós poderá saber verdadeiramente quando começa a vida.
Mas sabemos que quem interrompe a gravidez fá-lo, na larga maioria dos casos, por um motivo muito forte.
Eu não o aconselharia por quase nenhum motivo – a não ser que existisse uma violação ou a mãe fosse menor –, mas quem sou eu para impor a minha vontade a alguém?
Sou católico, dir-me-ão os católicos.
Mas sou também um defensor da laicidade.
Sou católico, mas laico.
Defendo que o Estado deve cuidar dos seus.
E providenciar os melhores cuidados possíveis a quem acabará por fazer o mesmo sem condições mínimas de segurança.
As leis do país não se podem subordinar às convicções religiosas.
Em qualquer circunstância.
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