As nossas avós

As nossas avós são uma parte importante de quase todas as vidas. Quando estão, mas também quando deixam de estar. Um Postal sobre a presença e ausência de Joaquina, avó de Luís Osório.

As nossas avós

As nossas avós são uma parte importante de quase todas as vidas. Quando estão, mas também quando deixam de estar. Um Postal sobre a presença e ausência de Joaquina, avó de Luís Osório.


1.

Pensamos nas nossas avós.

Até mais depois de partirem.

Quando cá estão esquecemo-nos de as mimar, de lhes dizer o quanto são importantes.

E quando morrem há um buraco que dificilmente é preenchido.

Nunca mais alguns pratos nos saberão ao mesmo.

Nunca mais poderemos dizer a alguém o que a elas dissemos.

2.

Isto quando corre bem, há quem não tenha sido afortunado.

Não me posso queixar.

Tive a fortuna duas vezes.

Quem me lê ou ouve sabe bem – a Alice e a Joaquina.

Uma com dinheiro, a outra sem dinheiro algum.

Uma com leituras e cultura, a outra sem livros e com a 4.ª classe mal tirada.

Uma de um amor mais distante, a outra de um afeto permanente.

3.

Falo sempre que posso da máquina de costura da Joaquina, a mãe da minha mãe.

Da sua vida a costurar soutiens.

Das viagens de autocarro de Campo de Ourique aos Restauradores – apanhava o 9 e saía na paragem antes do Rossio. Subia depois num elevador e recebia o ordenado das mãos de um patrão que lhe pagava em notas que a avó enrolava no seu porta moedas.

4.

Tirava o resto do dia e deixava-se ficar no sofá.

Na manhã seguinte tornava a sentar-se em frente à máquina Oliva que comprara a prestações depois do avô Júlio ter fugido com uma fadista – zarpou com a Adelaide e roubou-lhe a máquina que era o seu sustento, dela e dos dois filhos.

A minha avó Joaquina foi a mulher mais forte que conheci.

Empenhou-se e passou fome para ter a sua Oliva comprada a prestações e trabalhou 15 horas por dia durante todo o tempo de que me recordo.

Parava no dia em que recebia as notas do patrão – sentava-se a ver televisão com as pernas esticadas.

Por vezes punha os pés num alguidar com sal.

Por vezes comprava favas e ficávamos os dois a descascá-las.

Fui muito feliz com a avó.

A mulher da minha vida.

Queria tanto que estivesse comigo.

Queria tanto voltar a ir com ela, apanhar o 9, sair nos Restauradores, subir no elevador até ao patrão e às notas que embrulhava bem embrulhadinhas num porta-moedas que tenho guardado no caixote que só eu estou autorizado a abrir.

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