1.
É difícil encontrar uma imagem que me enterneça mais do que a de um casal de velhos de mão dada.
Podes falar-me de bebés acabados de nascer ou de gatinhos a fazerem boquinhas, mas nada se aproxima à sensação de uma mão na outra, de um olhar de carinho de um para o outro…
…de uma atenção, de um cerimonial, de uma partilha.
2.
Quero chegar a velho.
E adoraria ser o que me comove nos outros.
Ser capaz de a amar melhor no fim do que no princípio.
Ser capaz de lhe oferecer flores, de lhe dar bombons na boca, de chorarmos juntos nas estreias dos filmes à quinta-feira.
Ser capaz de a abraçar, de lhe dizer ao ouvido que está bonita, que está mais bonita do que nunca, que é a pessoa da minha vida.
3.
Termos mais de oitenta e andarmos de mão dada, adormecermos com os pés a tocarem-se, rirmos juntos e chorarmos um com o outro quando os nossos netos nos jurarem que não conhecem ninguém que seja tão bonito como os dois, os seus velhotes preferidos.
Gostava de ser capaz e de ter essa sorte.
Bebermos o cafezinho, fazermos as nossas viagens, inventarmos novas rotinas e organizarmos festas surpresa.
4.
Podermos boiar numa piscina de hotel.
Comermos ostras, andarmos no comboio fantasma, fazermos coleções de cromos como se fossemos tolos, deixarmos
bilhetinhos espalhados, velas acesas e com cheirinho, promessas de uma noite inesquecível.
Levar-lhe o pequeno-almoço à cama.
Surpreendê-la uma vez por semana.
Fazê-la chorar de amor.
E rir como se não passássemos de miúdos.
Quero acampar e ver as estrelas.
Convencê-la a experimentarmos óculos de realidade virtual, andarmos de balão, saltarmos de paraquedas.
Quero morrer primeiro do que ela.
Quero que seja ela a apagar a luz da cabeceira quando eu estiver preparado.
Sem tristeza.
Sem lágrimas.
Com as contas saldadas.
E a mão de um na mão do outro.
Não há nada de mais bonito do que isso.
Pois não?
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