1.
É uma das estórias que mais me comove entre as várias que conheço de futebolistas.
Foi um ídolo em Guimarães, é estrela no Catar e poderia estar hoje nas Américas com a camisola da seleção portuguesa.
Mas o futebol é uma metáfora da vida.
Muitas vezes, o talento não basta.
Muitas vezes, as circunstâncias travam percursos.
Muitas vezes, os erros que se cometem condenam ao esquecimento ou mata uma possibilidade que parecia estar ao alcance.
2.
Vou partir do princípio de que não sabes nada de futebol.
Que não conheces jogadores.
Este de que te falo chama-se Tiago Silva.
Já não pode ser muito mais como jogador, tem já 34 anos.
Ganha bom dinheiro no Médio Oriente, é reconhecido e foi um ídolo em Guimarães, um dos melhores jogadores do campeonato português.
3.
Tiago joga futebol como respira, é um organizador de jogo, permite que os colegas joguem melhor, é um príncipe da bola.
Quem o vê não imagina o que passou para ter uma vida digna.
Para teres uma ideia, só na adolescência deixou de morar numa barraca de um bairro difícil de Lisboa.
Até aos 12 anos, vivia entre telhas, com frio e chuva, sem casa de banho, roupa lava ou comida certa na mesa.
Os pais saiam para fazer o que aparecia e era uma irmã que tomava conta de tudo.
Só que ela ia à escola e o Tiago, ainda sem idade para aprender a ler e contar, ficava sozinho – as vizinhas tinham-no debaixo de olho, mas calculamos o que isso quer dizer.
4.
Era o bairro da Picheleira.
Lugar de droga e morte.
Também de vida, de miúdos que antes de se poderem perder, brincavam uns com os outros como se fossem irmãos.
O pai do Tiago fazia o que podia.
E um dia levou-o aos treinos das escolinhas do Benfica.
Foi captado e o seu pai, a partir daí, redobrou o esforço para que nada lhe faltasse.
Em casa iam muitas vezes para a cama de barriga vazia ou com uma malga de sopa com couves e água.
Tiago, de noite, antes de adormecer, rezava baixinho e pedia a Deus que lhe oferecesse a oportunidade de sair daquele buraco, de marcar golos, de transformar a vida dos que amava num sonho bonito.
5.
Deus cumpriu o prometido.
Tiago tem uma vida boa.
Ofereceu aos pais o que estes não imaginavam.
Casou com a Mónica, tiveram dois filhos e continua a fazer questão que durmam na sua cama.
Dá-lhes o biberon, beijinhos e cócegas, banho e perfume.
Um pediatra avisou-o de que os miúdos precisam de ter a sua cama para conquistarem autonomia.
Tiago respondeu que sim, mas que ainda era cedo para deixar de dar Amor da maneira como lhe era importante dar.
Sem dúvida, Tiago.
O pediatra sabe lá…
Abraço forte, campeão.
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