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Postal do Dia

Luís Osório | 13 jan, 2026, 18:50

As nossas crianças não podem morrer

Estarão as nossas crianças condenadas a perder a sua infância? A serem outras? Estarão as nossas crianças a morrer no seu estatuto de crianças? E o que fazemos com isso? Desistimos?

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Postal do Dia

Luís Osório | 13 jan, 2026, 18:50

As nossas crianças não podem morrer

Estarão as nossas crianças condenadas a perder a sua infância? A serem outras? Estarão as nossas crianças a morrer no seu estatuto de crianças? E o que fazemos com isso? Desistimos?

1.

No livro de Margaret Atwood, assim como a série que lhe ofereceu uma dimensão planetária, há uma revolução em curso.

Uma revolução triste.

Conservadora.

Antidemocrática.

Fascista.

Uma revolução que nasce da constatação de que as crianças quase já não nasciam.

De que a humanidade não conseguiria sobreviver mais do que umas poucas gerações.

2.

“The Handmaid’s Tale” ou em português “A História de uma Serva”, é um espanto.

O livro e a série.

Vale a pena ler e ver.

Até para compreender muito do que nos está a acontecer.

3.

O que seria um mundo sem crianças?

Não existiria futuro, é óbvio.

Mas o que aconteceria mais?

Morreria a esperança, rebentaria qualquer modelo de sustentabilidade, cresceriam as depressões e os suicídios.

As escolas seriam recreios de fantasmas, um campo nostálgico de morte ou de ausência de vida.

Seríamos ainda mais agressivos, os maluquinhos multiplicar-se-iam como cogumelos, inventar-se-iam novas seitas e apareceriam pessoas a jurar que Deus lhes deu ordens diretas.

4.

Um mundo sem crianças é um mundo sem risos que dobram nas suas bocas.

Sem tabuadas, galochas e sonhos.

Sem bolachinhas e banana esmagada, mais as maminhas a pingar leite e vida, mais as cantigas infantis que detestamos, mas que perceberíamos que amávamos no preciso instante em que deixassem de ser cantadas por elas.

5.

Mas não é isso que te quero dizer.

Não é apenas esse o meu ponto.

Ocorreu-me se as nossas crianças estão a morrer mesmo estando vivas?

Se está a morrer a infância como nós a reconhecemos?

Estamos a falar do futuro, mas será que as nossas crianças ainda o são?

Ainda o têm?

Ou começam a ser outra coisa, não melhor ou piores, mas outra coisa.

Viciadas em ser mais rápidas sem sair do lugar.

Viciadas em falar sem olhar para quem falam.

Viciadas em viajar sem sair do computador.

Viciadas nos jogos, no que é virtual, no que não é a vida que conhecemos, mas uma outra.

6.

O que podemos fazer?

Dar-lhes o nosso exemplo?

Ler em casa?

Passear, cheirar as flores, jogar à bola e ir a museus?

Voltar a ouvir música alta em casa em aparelhagens que já não usamos por agora caber tudo num Spotify?

Mas se lhes damos isso não estaremos a criar as condições para que percam?

Será que não os estamos a condenar a uma antecipada derrota?

Por mim, aceito o risco.

Sem qualquer dúvida.

Se forem derrotadas, são derrotadas.

Mas serão derrotadas com poesia, com literatura, com memória, com futeboladas no bairro e beijos nas mãos às velhotas quando estas lhes dizem que são muito bonitos.

7.

Podem perder, mas quero que percam com estilo e elegância.

A olhar as pessoas nos olhos.

Sem medo de sentirem.

Sem medo de amarem.

Sem medo de caírem e baterem com os cornos no chão.

Um dia poderemos não ver crianças a nascer.

Mas não façamos das nossas, das que aqui estão, moribundas na sua infância.

Crianças são crianças.

Têm de o ser.

Sem isso restar-nos-á muito pouco.

Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.

Luís Osório Postal do Dia
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