1.
Dani poderia ter sido o melhor jogador de futebol do mundo.
Tinha tudo.
Uma técnica prodigiosa, capacidade física, inteligência e imagem – o que numa indústria como o futebol tem muito peso.
Quando chegava a um clube e se iniciava uma época, as camisolas com o seu nome esgotavam-se.
Era ensurdecedor quando, depois de um jogo ou de um treino, saía dos balneários. No Sporting, no Ajax ou no Atlético de
Madrid, perseguiam-no, fotografavam-no, choravam como se ele fosse um “Beatle” na década de 1960.
2.
Os fotógrafos perseguiam-no para todo o lado.
E Dani fazia-lhes a vontade.
Era caprichoso, acumulava casos amorosos como se mudasse de camisa, alimentava polémicas e noitadas, chegava aos treinos cansado e os treinadores, quase todos, a meio das épocas, e por vezes no princípio das épocas, desistiam da utopia de o ver cumprir o destino que Deus lhe oferecera.
Dani não desejava ser jogador.
Dani desejava ser um playboy, chegou a proclamar Louis Van Gaal, mítico treinador holandês.
3.
Mas Dani tinha uma outra coisa.
Uma outra coisa que vale tanto como uma Bola de Ouro.
Um enormíssimo coração.
E isso é menos assinalado quando dele se fala, o que é injusto para um homem que conseguiu provar que o amor pode ser mais forte do que qualquer outra coisa.
Mais forte do que o dinheiro.
Do que o mediatismo.
Do que o sucesso.
4.
Dani tinha 27 anos quando Maria Luísa foi diagnosticada com um cancro na mama.
Jogava no Atlético de Madrid, ganhava um balúrdio, mas não hesitou quando viu a mãe sofrer nas primeiras quimioterapias.
Havia muito em jogo, dinheiro perdido por empresários desesperados, pelo clube que investira, por intermediários de publicidade, de agências de modelos, de empresas de comunicação e de eventos.
Havia camisolas para vender, massa para ganhar, como era possível que ele ousasse sequer pensar nessa hipótese?
5.
As pressões e ameaças foram muitas.
Mas fez mesmo o que ameaçara fazer.
Dani deixou de jogar futebol aos 27 anos.
Voltou para Lisboa para que a mãe, nos momentos que lhe restavam, o visse sempre, o abraçasse sempre.
Desapareceu das festas.
Desapareceu dos holofotes.
Nunca mais jogou futebol e a mãe, genuinamente feliz, acabou por viver mais onze anos.
Nessa longa década de sofrimento disse ao seu príncipe que podia ir, que podia aceitar os convites, que não era tarde, que as pessoas o queriam aplaudir, que ele ainda iria provar ser o mais especial.
Só que Dani decidira e estava decidido.
Devia ficar perto da mãe, o tempo que fosse preciso.
6.
Ficou até ao fim.
Maria Luísa que trabalhava na Casa Pia como administrativa e que viu tantos meninos passarem ao lado da vida por não terem tido a
sorte de um abraço no tempo certo, não se pode queixar do seu rapaz, dos seus rapazes, pois Dani tem um irmão, o Renato.
Mas a história ainda não acabou.
Uns meses antes da morte, Dani ofereceu à mãe uma última prenda: o nascimento da sua primeira neta.
Da sua primeira filha.
A que deu o nome de Maria Luísa.
Uma bebé que foi abraçada pela avó que pôde finalmente deixar-se ir.
A pequena Maria Luísa tem hoje 14 anos.
Não se lembra dos mimos da avó, mas talvez nela fale com a irmã Benedita, a mais nova.
As duas filhas de um pai que poderia ter sido o melhor jogador do mundo.
Mas o que interessa isso em comparação com a certeza de que o seu coração é gigante, do tamanho da mais alta montanha?
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