1.
A história foi-me contada por um grande amigo de David Fonseca.
Antes de a repetir é importante fazer a ressalva: não conheço o David.
É quase estranho pois, com tantos anos a andar por aqui, e sendo o país tão pequeno, nunca nos cruzámos.
E isto apesar de o admirar.
Aliás, é para mim incompreensível que o artista mais espetacularmente fadado para ter uma carreira internacional não a tenha tido de uma forma expressiva.
Um dia perguntar-lhe-ei por isso.
2.
A história foi-me vendida como verdadeira.
E o amigo de David é mesmo seu amigo.
Passou-se em Viena há muitos anos.
No tempo em que acabara de formar os Silence 4 e estava à descoberta do mundo.
Fora numa excursão que partiu de Leiria, não faço ideia se ia com os pais ou com alguém, mas a visita à capital austríaca tinha um ponto alto: visitar a casa onde Mozart vivera durante dez anos, no apogeu da sua criação.
3.
Ele e os seus colegas de excursão entraram para o museu localizado no centro de Viena, a três passos da majestática Catedral de Domgasse.
A visita começou pelo 3.º andar.
E as pessoas foram descendo.
Ouviram trechos compostos na casa, pinturas vitorianas, partituras, cartas e provas da relação do génio com a maçonaria.
4.
Chegaram finalmente à sala do mítico piano que Mozart comprara a Anton Walter, um pianoforte em que compôs “As Bodas de Fígaro” e os seus últimos concertos.
Podemos imaginar o fascínio do jovem artista – até a vontade de poder tocar no objeto que, além do mais, é de uma beleza sumptuosa, o que era aliás apanágio dos pianos criados por Walter, o mais afamado fabricante à época.
Lá se despediram da divisão, mas uma senhora com idade para ter juízo ficou para trás.
Deixou-se sorrateiramente ficar e a segurança, na ideia de acompanhar a excursão, esqueceu-se dela.
Passou pela cabeça de David Fonseca que a velha senhora poderia fazer uma loucura.
Por isso, também para gozar o prato, ficou a observá-la entre portas.
5.
A mulher passou a barreira de proteção e aproximou-se do piano de Mozart.
Pôs os dedinhos nas teclas e começou a tocar.
Durante uns breves segundos o mundo parou na casa de Mozart.
Juram os místicos que o próprio Wolfgang deu três voltas no caixão.
A velha de Leiria, num improviso para a história, tocou o melhor que soube, o refrão das “Pombinhas da Catrina”.
Nada provocara tanto espanto desde a queda do Império Austro-Húngaro.
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