1.
Francisco Sá Carneiro faria 92 anos em julho.
Morreu quando eu era uma criança – recordo vagamente uma locutora da RTP a interromper a emissão para contar ao país que acontecera uma tragédia.
Tinha 46 anos.
Mais novo do que eu sou agora.
Muito mais, oito anos.
2.
Quero escolher hoje palavras ainda mais simples do que as que uso na maioria dos dias.
Faço-o para que toda a gente me entenda, para que estejamos durante três minutos no mesmo barco a falar e a ouvir a mesma língua.
Faço-o também para resgatar a sua memória e por uma questão de decência. Tem sido insuportável ouvir certas pessoas nomearem Sá Carneiro como inspiração.
3.
Francisco, apesar de se dizer de esquerda, era um homem de direita.
É inquestionável.
Mas de uma direita que tornou liberal nos costumes e social-democrata na economia.
Era amigo de artistas e poetas.
Um aristocrata do Porto que virou costas ao legado de Salazar fundando a Ala Liberal e virou costas a Marcello Caetano saindo da Ala Liberal.
Era culto, um intelectual que colocou o amor à frente da política, um moderado que travou do seu lado qualquer ataque que pudesse ser feito ao Partido Comunista após o 25 de Novembro.
Negociou-o com Mário Soares e Ernesto Melo Antunes.
4.
Era fortemente pragmático e ferozmente humanista.
Acreditava em Deus, mas desligou-se da Igreja.
Acreditava que o capitalismo só faria sentido se fosse temperado por uma Economia Social como era preconizado por António Sérgio, um dos seus mentores.
Acreditava no ser humano e na liberdade.
Acreditava na democracia e lutou sempre contra os radicais de direita e de esquerda.
5.
Francisco era muito baixo.
Julgo que não chegava ao metro e setenta.
Mas quando aparecia, aparecia.
Era muito baixo, mas tão magnético que parecia um gigante.
Morreu em Camarate.
Num avião em que não queria entrar.
Num avião em que acabou por embarcar para não chegar atrasado a um comício de um general.
Era só isto.
Dizer-te que Sá Carneiro deveria ser respeitado por gente que torna irrespirável o ar que pisa.
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