Em que momento os nossos filhos deixam de olhar?

Em que momento os filhos deixam de olhar para trás quando os levamos à escola e ficamos a vê-los ao longe? Os psicólogos dizem que é um bom sinal, mas os pais nunca estão preocupados.

Em que momento os nossos filhos deixam de olhar?

Em que momento os filhos deixam de olhar para trás quando os levamos à escola e ficamos a vê-los ao longe? Os psicólogos dizem que é um bom sinal, mas os pais nunca estão preocupados.

1.

O meu filho Afonso tem 8 anos e nunca mais olhou para trás quando o deixo na escola primária.

Falei nisto ao meu amigo Daniel Sampaio; no meu bocadinho de tristeza, talvez na vontade que o tempo parasse e eles não crescessem…

…todos eles, não apenas o Afonso que nasceu autodeterminado a encontrar o seu destino antes de deixar os calções e de usar afia lápis.

2.

Daniel não o disse, mas pensou-o, sei que o fez.

Que a preocupação tem a ver comigo, não com ele.

Porque é um sinal de que está tudo a correr bem, que o miúdo tem confiança, que procura a sua própria aventura, tudo isso.

Mas eu queria que olhasse para trás quando o vou pôr à escola.

Queria que me dissesse adeus, que me desse um abraço muito forte e um beijo.

3.

Porque ele sabe que eu fico especado na porta onde o deixo.

Mas nada, nem um olhar tímido ou de lado, nada de nada.

Prossegue como se estivesse sozinho e sem rede, só existem os amigos e o que traz na cabeça, os planos, os livros, as notícias que o perturbam, o trabalho de grupo, quem sabe uma paixoneta que nunca confessa.

4.

Quando é que envelheci?

Ou ele?

Em que dia o Afonso deixou de olhar?

Em que dia a Benedita deixará de o fazer?

Talvez não deixe, é uma menina, as meninas são diferentes, abraçam-nos, beijam-nos, dizem coisas ao ouvido que nos comovem.

Conta-me Daniel, se ela deixar de olhar também é um sinal que está a correr bem?

Mas se for isso, o facto de ela me olhar, e abraçar, é preocupante?

Meu Deus, ser pai é uma viagem desesperada, insegura e maravilhosa.

Nunca sabemos o que pensar pois, às vezes, o que é bom é mau.

Ou o que é mau é bom.

Mas quero que ele saiba, e ela, como os dois mais velhos, que fico sempre parado a vê-los entrar nas portas onde deixei de pertencer.

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