Manuel Alegre morrerá de pé

Manuel Alegre parece uma árvore. E sabemos bem que só elas morrem de pé. Até ao seu último dia escreverá versos e lutará pela liberdade e pela democracia. É um dos últimos moicanos.

Manuel Alegre morrerá de pé

Manuel Alegre parece uma árvore. E sabemos bem que só elas morrem de pé. Até ao seu último dia escreverá versos e lutará pela liberdade e pela democracia. É um dos últimos moicanos.

1.

A minha fortíssima amizade com Edmundo Pedro, um dos maiores heróis da resistência à ditadura, levou-me a fazer o que tinha de ser feito em relação a Manuel Alegre.

Os dois estavam de relações cortadas e as razões de Edmundo eram fortes – distanciei-me de Alegre não tendo nós qualquer tipo de proximidade.

O meu pai era seu amigo e foi um dos primeiros, antes do 25 de Abril, a gravar um poema seu. Por isso, os textos que lhe dediquei tiveram importância para mim.

Certamente que pouca ou nenhuma para ele, mas muita para mim.

2.

Edmundo morreu uns meses antes de completar 100 anos.

E Manuel Alegre, honra lhe seja feita, continua de pé e sem medo de ser visto assim…

…mais frágil, mais cansado, mais velho.

Poderia proteger-se, ficar por casa, deixar o tempo gastar-se, mas tal não seria digno de um combatente político e de um poeta.

Alegre faz por ser visto, por se levantar todos os dias por mais cansado que esteja, sai de casa, almoça e janta com amigos e escreve, sinto que continuará a escrever até à última folha de papel, até ao derradeiro verso.

3.

Amanhã ou depois escreverei sobre saudosismo e saudosistas, mas deixa-me ser contraditório, desabafar que já não há homens assim.

Homens que são árvores.

Que morrem de pé.

Que continuam a combater apesar das feridas, das falhas e derrotas.

Manuel Alegre é um deles.

E eu não posso deixar de o abraçar.

Por todos os poemas.

Por toda a resistência.

Por não desistir de estar, de escrever, de falar…

…mesmo quando a sua voz já não é a que nos obrigava ao silêncio e à utopia…

…mesmo quando lhe custa a falar, fala.

Mesmo quando as palavras parecem escapar-lhe do controlo, mesmo quando as ouvimos sumidas, ele não se acobarda, não se retira por orgulho, não nos vira as costas.

Manuel Alegre é o mais poderoso de todos os versos que escreveu.

Mais do que a Trova do Vento que Passa.

Mais do que a Praça da Canção

Mais do que a Flor de Verde Pinho.

Mais do que qualquer verso, ele é um dos últimos habitantes da aldeia dos homens e mulheres que não desistem.

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