Miguel Sousa Tavares

A pessoa que me convenceu a ser jornalista faz hoje 76 anos. É amado por metade do país, talvez detestado por outra metade. Mas é único, radicalmente solitário, livre e indomável.

Miguel Sousa Tavares

A pessoa que me convenceu a ser jornalista faz hoje 76 anos. É amado por metade do país, talvez detestado por outra metade. Mas é único, radicalmente solitário, livre e indomável.

1.

Escrevi há uns dias sobre Sérgio Sousa Pinto.

Escrevi o que pensava, trocámos ideias a propósito dos que dividem as águas, da falta que nos fazem pessoas assim…

…Miguel Sousa Tavares é isso ao quadrado.

Impiedoso.

Solitário.

Injusto.

Sedutor.

Corajoso.

Arrogante.

Radicalmente único.

2.

Miguel é o único jornalista – mesmo que já não o seja há muito tempo – que se mantém na primeira linha há 50 anos.

Não há mais ninguém que tenha resistido ao tempo e sobrevivido às notícias, ao impacto dos inimigos que se fazem quase todas as semanas, à pressão dos olhares, dos julgamentos apressados, dos erros que se cometem quando se dá opinião.

Miguel resistiu.

No final da década de 1970, aqui na RTP, ganhou relevo e espaço.

Era bem preparado, falava um inglês perfeito num país em que poucos falavam línguas, tinha mundo, não parecia português…

…fazia perguntas como se sempre tivesse vivido em liberdade.

Conquistou espaço, tornou-se uma referência nas reportagens e nas entrevistas políticas em que se confundia com um advogado de barra numa série americana de culto.

Fez parte da primeira grande leva de jornalistas de um novo tempo.

Todos eles e todas elas foram desaparecendo.

3.

Miguel manteve-se.

Fundou revistas.

Escreveu livros que se tornaram icónicos.

Envolveu-se em enormes polémicas, influenciou a sociedade portuguesa como poucos e viveu intensamente sem se importar com o povo que muitas vezes despreza…

…que muitas vezes faz por amar.

4.

Casou-se e divorciou-se algumas vezes.

Foi advogado, ajudou a extinguir a PIDE nos anos quentes da revolução, é filho de dois imortais, o Francisco e a Sophia

Sim, também isso o poderia ter travado.

Não é fácil ser filho de gente assim, indomável e genial.

Como para o Martim não é simples ser filho do Miguel.

5.

Faz hoje 76 anos.

E eu gosto muito dele.

Devo-lhe a minha entrada nas redações.

Desejava na adolescência ser como ele.

Livre.

Desejava ser futuro.

Sim, era assim, agora que o escrevo é-me claro.

Futuro, ele era futuro.

Um Adamastor e uma Boa Esperança.

Parabéns, meu querido Perry Mason.

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