1.
Na semana passada, uma mulher disse-me assim:
“Leio todos os dias os teus postais. Gosto quase sempre, irritam-me às vezes, numa ou noutra ocasião odeio-os. Porque é terrível quando nos dizes que tudo está ao nosso alcance, que é fácil mudar de vida quando a nossa não nos serve”.
2.
Falámos um bocadinho.
E prometi-lhe este postal.
Porque penso o que ela pensa.
Sem tirar uma vírgula, sem acrescentar um ponto.
Quando tento provocar reações e me aventuro nos campos minados do otimismo, é por acreditar que a vela, mesmo que a luz seja ténue, não se pode apagar.
A responsabilidade de escrever todos os dias, de te contar estórias, de te tentar surpreender com o que não esperas, exige também que não me esqueça dos tantos que vivem desasados, com uma vida que lhes rouba toda a água e quase toda a esperança.
Quando sou otimista, quando digo que te cabe em primeiro lugar o dever de combater pelo teu futuro, não é por achar que é fácil, mas por saber que a mensagem, naquele dia, naquele minuto em que é lida ou ouvida, pode mudar a vida de uma só pessoa concreta.
Pode mudar a tua.
3.
Se fosse fácil, ah se o fosse andávamos todos a cantar e a dançar apaixonados pelas oportunidades que nem sequer imaginávamos poderem estar ao nosso alcance.
Mas não é fácil.
O corpo de quem perde muitas vezes, de quem parece condenado por ter nascido no lugar errado, por ter conhecido as pessoas erradas, por ter vivido experiências traumatizantes, por ter bebido todos os frascos azedos do mundo…
… sim, o mundo de quem perde acomoda-se ao medo.
Deixamos de tentar.
Deixamos que os outros decidam por nós.
Só queremos que nos deixem em paz, que não nos contaminem com esperança ou nos adormeçam com contos de fadas e príncipes em cavalos brancos ou nos entonteçam com promessas de trabalho, de felicidade, de um riso de que nos esquecemos.
4.
Muitas vezes torna-se impossível.
Os músculos já não nos obedecem, sentimos tonturas quando nos levantamos, uma agonia presa na garganta, um burburinho no estômago, uma tristeza feroz que nos submete e estrangula.
Acredita que sei do que falo.
É por isso que insisto.
Não por bastar que tu o desejes.
Infelizmente não é verdade.
Mas por saber que sem tu o desejares não será possível.
Até amanhã.
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