1.
Todos os dias, numa tabacaria que já não vende tabaco, digo aos que gastam dedos e moedas a raspar num papel…
… e a jogar no Placard.
No EuroMilhões.
Na Lotaria…
… digo-lhes que não desejem ser ricos por não dar saúde e só trazer problemas.
2.
Não me importaria de ganhar uns milhões, mas ser rico é uma carga de trabalhos.
Nascem perguntas que antes não existiam.
A quem deixamos o dinheiro?
Que filhos se irão desentender?
Que amigos nos começarão a pedir isto e aquilo?
Que gulosos tentarão tirar vantagem?
Em quem podemos confiar?
3.
Passaremos a ter problemas que não imaginávamos.
Conheço ricos.
Vários.
Bastantes até.
Há para tudo como na farmácia, mas muitos deles são desconfiados, isolam-se, têm medo, fecham-se em bunkers, deixam de ter desejo por poderem comprar tudo o que lhes apetecer…
… o gosto deixa de ser o mesmo.
Deixamos de ter paladar e de valorizar viagens, restaurantes, relações.
Cansamo-nos de procurar o que falta, mas depois sentimos que nos falta alguma coisa que não conseguimos explicar.
Ah, e destruímos o que temos por acreditarmos que podemos ter melhor.
4.
Antes faltava-nos o dinheiro.
Depois falta-nos o que tínhamos antes de ser ricos.
Antes tínhamos a esperança de um dia ser milagre.
Depois temos o medo de um dia tudo se desmoronar.
Desorientamo-nos.
Passamos a ser um alvo.
Não sabemos onde meter as mãos, onde ir, a quem telefonar, em quem confiar.
Tornamo-nos insatisfeitos.
Gananciosos.
E um alvo de gente que passa a amar-nos, a desejar-nos, a inquietar-nos, a embelezarmo-nos, a surripiar-nos.
Boa-sorte para isso.
Depois diz-me se não tenho razão, mas pagas tu o almoço no sítio que eu escolher.
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