1.
Terminou o Mundial e continuo a sentir a falta de Diego Armando Maradona.
O Papa Francisco batizou-o como metáfora do ser humano, um gigante armadilhado de trevas, um anjo contaminado de muitos diabos, um artista maior no corpo de um traste.
Um Deus imperfeito.
2.
O jornalista Fernando Emílio, no último almoço que partilhámos em Évora, falou-me do seu célebre jantar com El Pibe, no Casablanca, em Viseu.
O que me ri com a sua descrição da chegada de Maradona a uma cidade que julgava ser uma grande metrópole, afinal os prémios Gandula tinham prestígio e era impensável que a cerimónia acontecesse no “cu do mundo”, curiosa expressão usada pelo argentino quando, após muitas horas na Estrada Nacional, lá conseguiu chegar a Viseu.
3.
Jogava no Barcelona e o clube não lhe dera autorização para receber o prémio, o que lhe entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
Apanhou o avião de manhã e alugou um carro para dar um pulo a Viseu.
Perdeu-se várias vezes na viagem pela estrada mais perigosa naqueles anos.
Parou, fazia perguntas sobre se estava a ir bem, voltava ao carro e a perder-se, uma viagem interminável de mais de cinco horas.
4.
O ano era 1983, Maradona tinha 23 anos, e lá chegou à cidade de Viriato onde muitas centenas de pessoas o aguardavam com bombos, fanfarras e ranchos folclóricos.
As crianças vieram abraçá-lo, o que o comoveu por lhe parecer estar de volta ao seu bairro de Buenos Aires.
Comoveu-se tanto que aceitou conversar com Rui Tovar e um outro jornalista, creio que Rui Cartaxana.
Uma entrevista surrealista, pois Maradona, com toda a naturalidade, recebeu-os todo nu…
…percebendo o incómodo lá vestiu um roupão.
5.
A cerimónia era às dez da noite e o génio estava esganado.
Foi aí que entrou o Fernando Emílio que conhecia os restaurantes do norte a sul como a palma das suas mãos.
Levou-o, mais o grande Neves de Sousa, a provar um churrasco de cabrito que lhe caiu no goto como se fossem ostras servidas na Ilha dos Amores
Emílio trocou o número com El Pibe que o fez jurar que lhe telefonava nas férias para repetirem a faena, mas da próxima vez sem pressas ou outros compromissos.
6.
Reza a história que o Barcelona, ao saber que Maradona viajara para o fim do mundo, enviou dois seguranças para o proteger.
Dois armários que o seguiram de regresso a Lisboa e ao aeroporto onde o Deus mais imperfeito do Olimpo tinha um avião à espera para regressar a Barcelona onde foi diretamente para o treino onde certamente conseguiu finalmente “desmoer” o cabrito.
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