1.
No Hospital Santa Maria, em Lisboa, o maior do país, há um lugar em que não se entra.
Entra quem lá trabalha.
Mesmo médicos e enfermeiros não se demoram quando lá passam…
…a maioria dos médicos e enfermeiros, para ser rigoroso, nunca pôs os pés no Piso -2, o sítio dos que esperam no frigorífico, também dos corpos que ninguém reclama e dos resíduos hospitalares, do lixo e dos cheiros que precisam de ser expulsos dos lugares onde passa gente.
Também ali habitavam as máquinas de radioterapia por causa das radiações.
Sim, o Piso -2 é o da morte.
2.
Os elevadores só lá param com um código especial.
As escadas não descem tão fundo…
…há uma porta fechada, uma porta de chumbo que precisa de chaves grandes, pesadas.
Eu visitei o -2.
Há pouco mais de vinte anos a administração do hospital deu-me autorização para ver com os meus olhos, um dia conto melhor a história, não interessa agora.
3.
Nunca vira nada assim.
E nunca mais vi algo que, com aquele lugar, se pudesse comparar.
Não que tenha visto o Mal.
O espaço era limpo e as pessoas bastante empenhadas no que estavam a fazer, mas desfaleci com o peso dos subterrâneos e da ausência de janelas, fui-me abaixo, o que me envergonhou.
Os trabalhadores tinham também a marca do lugar que ocupavam.
Sombrios.
Inadaptados.
Excluídos.
Gente de trabalho, mas a quem o trabalho estava vedado em empregos visíveis.
Por terem uma deficiência.
Por serem diferentes.
Por serem rudes.
Se estivéssemos na Catedral de Notre-Dame encontraríamos Quasimodo.
4.
Poucas imagens me comoveram assim.
E me surpreenderam tanto.
Um exercício de humildade – há uma vida invisível que corre por baixo dos nossos pés, vidas essenciais para que a máquina não pare por falta de corda.
Não sei como agora estão as coisas.
Sei que continua a não se poder ir lá pelas escadas.
Sei que continua a não se poder ir lá sem o código obrigatório no elevador.
Mas desconheço se os que conheci ainda lá estão.
Sei o que senti naquele dia distante quando regressei à luz.
Senti-me uma partícula perante a imensidão das histórias dos homens e mulheres poderosamente invisíveis.
Os que nos dão corda.
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