1.
Habituámo-nos a ver Nuno Rogeiro em estúdios de televisão a comentar da guerra.
Também da paz, das possibilidades para chegar a entendimentos diplomáticos ou políticos, mas essencialmente da guerra.
De mísseis, obuses, canhões, de espionagem e serviços secretos, de valas comuns e crimes de guerra, de ditadores, drones, bombas, minas, estreitos, sirenes e abrigos.
2.
Tornou-se uma figura familiar.
Envelheci com ele e ele comigo.
E contigo, se não fores muito mais novo ou muito mais nova do que eu.
Nuno Rogeiro parece não ter vulnerabilidades.
Chegou a ocorrer-me que era espião – com aquela pinta de Andy Garcia não me teria admirado se tivesse pertencido à CIA, à Mossad ou ao MI5.
Ou então ser um 007 à portuguesa.
Embrulhado com Bond Girls e a combater pela Pátria em telhados, casinos e hotéis com passagens secretas e cápsulas de cianeto na Quinta da Marinha ou no poço da Regaleira.
3.
Mas não é um agente secreto.
Não é frio, exclusivamente racional ou seráfico o suficiente.
Se o fosse não teria a sua mãe sempre presente.
Maria da Conceição que morreu com as suas mãos nas dele.
Era um miúdo, um jovem adulto, não estava preparado para a perder – desde quando um filho está preparado para a morte precoce de uma mãe?
Filha de um militar que combateu na I Guerra Mundial, casada com um político e académico, Maria da Conceição era dos filhos.
Do Nuno e do seu irmão mais novo.
Protegia-os, abraçava-os, fazia-lhes doces que o Nuno assaltava quando ainda estavam a apurar no forno ou no frigorífico.
4.
Morreu-lhe demasiado cedo.
E ele não a pôde apresentar aos quatro filhos e seus netos.
Ainda há uns meses, comentou publicamente da sua enorme pena por a mãe não conhecer a mais velha, Inês, advogada, idealista, defensora muitas vezes de quem não se pode defender, de gente pobre e excluída.
Talvez a avó a conheça, os conheça, de uma outra maneira…
…quem sabe se através de serviços secretos de que Nuno Rogeiro nem sequer imagina a existência.
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