O cancro vem de nós, pertence-nos

Não há nenhuma família a quem o cancro não tenha tocado. Muita gente sobrevive, mas há sempre um medo que fica, uma sombra de que não nos conseguimos livrar.

O cancro vem de nós, pertence-nos

Não há nenhuma família a quem o cancro não tenha tocado. Muita gente sobrevive, mas há sempre um medo que fica, uma sombra de que não nos conseguimos livrar.

1.

Estive dois anos da minha vida a ouvir Manuel Sobrinho Simões.

Um privilégio que não sei como agradecer à vida… e sempre que o escutava, mesmo quando falava da morte ou da sua possibilidade, mesmo quando falava de diagnósticos de cancro e da maldição que acompanha quase todas as famílias, era de vida que falávamos.

2.

Não coloco em causa o sofrimento, infelizmente não é isso.

A minha mãe morreu com um cancro.

Tinha 57 anos.

Entre o diagnóstico e a sua partida foram dois ou três meses, não mais.

O seu irmão, e meu tio, morreu com um cancro.

A minha tia, irmã do meu pai, morreu com um cancro.

E o pai de Manuel Sobrinho Simões morreu com um cancro.

3.

Isso não é diferente do que acontece com a maioria das pessoas – quantas famílias estão imunes a esta doença? Quantas estão protegidas da revolta de algumas das nossas células, da sua brutal loucura ou desejo de autodeterminação?

O cancro não vem do exterior, não é um bicho que nos ataca ou um vírus que se muda para dentro de nós como se fossemos uma casa desabitada, não é isso.

O cancro somos nós, pertence-nos, não vem de fora, é nosso, são as nossas células, é um erro no que nos formata.

4.

O que me assusta não é a hipótese de morrer quando as possibilidades são equilibradas entre perder e ganhar.

Não é tanto o inevitável fim quando o combate está perdido à partida.

O que me assusta mais no cancro é que nunca estamos verdadeiramente curados – é o medo que fica depois de festejarmos um bom diagnóstico, é o pânico que sentimos quando voltamos ao hospital para testes de rotina, é o de deixarmos de viver como antes, de deixarmos de dormir com a tranquilidade de antes.

5.

É isso que me assusta.

O de estarmos entregues a planos que não controlamos.

Podemos e devemos fazer a nossa parte, mas nunca sabemos se o mal está a jogar às escondidas connosco.

O nosso sorriso deixa de ser o mesmo.

Os nossos lábios perdem a vida que tinham.

Os nossos olhos ficam mais baços.

Estamos vivos e curados.

Mas há uma penumbra de que nunca mais nos livramos.

É mesmo assim.

Saibamos viver com a sombra.

Façamos a nossa parte.

E tiremos o melhor da vida – porque se ela nos oferece o medo podemos retribuir-lhe com a vontade de ser sua amiga.

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