1.
Antes de avançar neste “Postal do Dia”, faço uma declaração de interesses: o personagem principal é meu primo direito.
Filho da minha tia Isabel, irmã do meu pai.
E de um brasileiro, Amauri, por quem ela se apaixonou num outro século.
O meu primo é um chef de cozinha diferente de todos os outros que conheço – procura a liberdade e persegue o Bem, o fazer as coisas de maneira a deixar uma marca em gente abandonada, perdida, rebentada pela vida.
2.
Nuno Bergonse estava destinado a ser dono de lugares Michelin, mas para ele o mundo não é bonito e cada um de nós precisa de fazer a sua parte, por mais ínfima que pareça ser.
Não tenho a certeza absoluta, mas acho que o Nuno ainda não tem 40 anos.
Recordo bem os seus primeiros tempos, no Ritz e depois no Eleven.
Recordo o seu entusiasmo quando foi viver para Barcelona. Um desafio irrecusável de pertencer à equipa do Moo, um dos melhores restaurantes da Catalunha, duas ou três estrelas Michelin.
Recordo quando abriu o seu primeiro restaurante, o Pedro e o Lobo, em Lisboa.
Recordo um almoço em que me contou que ia fazer o MasterChef Portugal.
3.
Em todos esses passos, entusiasmou-se.
Mas havia sempre qualquer coisa amarga, uma dúvida permanente, uma questão existencial.
Ganho muito dinheiro, mas qual o propósito?
A fama?
Ser milionário?
Nuno desejava mais, fazer a sua parte.
4.
Deixou os seus restaurantes, mudou-se para o Algarve e passou a trabalhar de outra maneira.
Como consultor no nascimento de vários espaços.
Em eventos de empresas.
Como cozinheiro de reis, princesas e estrelas de Hollywood.
E com os dias que lhe sobram investe o tempo no que verdadeiramente o completa.
Ajudou a fundar o “É um Restaurante”, projeto que retirou da rua pessoas em situação de Sem-Abrigo e que se tornou icónico e a prova provada de que ninguém está excluído à partida.
E fundou também o “Marhaba” que integra refugiados a partir da comida de cada um dos lugares das suas memórias.
5.
Nuno Bergonse é uma pessoa inteira.
Um enorme talento.
É simpático, bonito, tem o pacote completo.
Filho mais novo da minha Isabel, a tia “Bibinha” como eu lhe chamava em criança, a que ficava sempre numa pontinha da mesa nos loucos jantares da nossa família maravilhosamente disfuncional e com uma obsessão maluca pela liberdade.
Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.