O dia em que a avó Alice me prometeu só morrer depois do meu pai e seu filho

Uma história íntima no "Postal do Dia". A história de Alice Osório, mãe do pai de Luís Osório. Uma avó extraordinária que parecia eterna e que prometeu morrer apenas depois do seu filho partir. Uma promessa que cumpriu.

O dia em que a avó Alice me prometeu só morrer depois do meu pai e seu filho

Uma história íntima no "Postal do Dia". A história de Alice Osório, mãe do pai de Luís Osório. Uma avó extraordinária que parecia eterna e que prometeu morrer apenas depois do seu filho partir. Uma promessa que cumpriu.

1.

A minha avó Alice esperava por mim no seu sofá em frente à televisão.

Era uma mulher muito bonita, mas quando dela me tornei íntimo já os anos a puxavam para baixo.

Andava curvada nesses anos em que me esperava sentada no sofá da sua casa da Praça do Chile, a casa onde o meu pai sempre viveu em Portugal. Curvada na espinha, mas direita, sempre direita no seu orgulho e na sua força descomunal.

2.

Fala-se da coragem do meu pai, da sua arrogância face à doença e a um destino que fez por castigar.

Mas se ele era forte a sua mãe, e minha avó, era-o em duplicado.

A tudo pareceu resistir.

À tuberculose e à pneumónica da década de 1920.

À ida dos pais para o antigo Congo Belga – falava-me muitas vezes da viagem que fez num barco parado a meio do oceano por tropas nazis.

Resistiu também a um casamento com o meu avô, bastante mais velho do que ela, uma relação que não foi feliz, mas que lhe ofereceu uma estabilidade e seis filhos.

3.

A minha avó Alice era a única que conseguia quebrar o meu pai, a única que o comovia até às lágrimas, a única que o defendeu nas suas opções, a que nunca hesitou em ser a rede que ele precisava.

O meu pai assumiu muito jovem a sua homossexualidade, mas foi ela que o apoiou para que o preço a pagar não fosse demasiadamente alto.

E quando o pai se tornou um ícone contra o preconceito e o combate à SIDA, ela esteve na primeira linha.

E quando conversávamos dizia sempre:

“Só descansarei, só poderei morrer, depois do teu pai. Não o posso deixar aqui sozinho e desamparado.

4.

A avó viu morrer três.

Primeiro o mais novo, o João.

Depois o meu pai.

E por fim a tia Cristina.

Quando o meu pai partiu ficou aliviada.

Perguntou-me, logo depois do funeral, se eu podia ir jantar lá a casa. Prometera-me o esparregado que só ela conseguia fazer tão cremoso.

Ficámos à conversa de mão dada.

Ficámos à conversa em absoluto silêncio – e eu percebi que começara nessa noite a preparar o caminho para ir.

Ainda viu a minha tia Cristina morrer.

E foi então à sua vida.

5.

A avó Alice é uma das figuras que guardo aqui dentro.

Ainda hoje me lembro das noites de Natal em que comíamos o seu irrepetível Bacalhau à Lagareiro.

Ainda hoje me lembro do dia em que saí de casa da minha mãe para morar com ela – e lá fiquei mais de um ano.

Ainda hoje me lembro do dia em que morreu.

Do dia em que fui a sua casa e pela primeira vez ela não estava.

Ou o meu pai.

Uma casa que pareceu envelhecer trinta anos em apenas dois dias.

Sim, a avó Alice era também a minha casa.

E isso nunca poderá ser corrigido.

Pelo menos nesta vida.

Texto e programa de Luís Osório

Ouça o “Postal do Dia” na Antena 1, de segunda a sexta-feira, pelas 18h50. Disponível posteriormente em Spotify, Apple Podcasts, YouTube e RTP Play.