1.
António Ramalho Eanes achou estranho quando a sua mulher, a então Primeira Dama da República, Manuela Eanes, “desapareceu” com quatro ou cinco adolescentes de Penamacor.
Era uma visita presidencial, o ano seria 1978 ou 79, e as ruas da vila estavam cheias até ao Castelo.
Não sei se a comitiva aproveitou para visitar a Serra da Malcata ou se os linces ibéricos estavam na agenda, mas nenhum assunto transpirou para a história, com exceção da fuga de Manuela Eanes, da surpresa do seu marido e do bando de adolescentes.
2.
Um bando liderado por um miúdo de 15 anos.
Alto e magro, um pauzinho de virar tripas, que se apresentou como o diretor de um jornal juvenil, “Os Amigos de Penamacor”.
Foi ele quem se dirigiu à Primeira Dama.
“Peço desculpa por a incomodar, mas temos um jornal e um centro juvenil onde nos encontramos, gostaríamos muito que o visitasse”.
Para espanto geral, Manuela Eanes disse que sim.
“Vamos lá agora que isto está calmo”.
3.
Os miúdos tinham uma intenção: sacar uma entrevista ao Presidente da República.
A visita correu bem e o jovem estudante de liceu, de nome António José Seguro, convenceu Manuela Eanes.
Tirou uma fotografia com a Primeira Dama para a capa e conseguiu que o Presidente da República respondesse a duas ou três perguntas.
4.
Uma festa em Penamacor.
O pai Domingos e a mãe Maria do Céu orgulharam-se do filho mais novo que parecia ter nascido com vontade de trepar montanhas e de provocar o destino e as impossibilidades.
Alto, magro, um pauzinho de virar tripas que é hoje Presidente da República e a quem António Ramalho Eanes, em variadíssimas ocasiões, apresentou como o homem que raptou a sua mulher mesmo à frente dos seus olhos.
Verdade.
Um rapto bonito.
E que tem qualquer coisa de estranhamente mágico.
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