1.
Perguntam-me muitas vezes: “Luís, como consegues escrever todos os dias um Postal do Dia? Há assim tantas estórias?”.
Invariavelmente respondo que poderia, se quisesse, escrever dois ou três postais por dia.
Basta estar atento aos pormenores e fazer perguntas – não sendo eu, há muitos anos, um jornalista, a curiosidade e a pergunta são o que define uma das mais belas profissões do mundo.
2.
Dou-te um exemplo.
Fui jantar a casa de um casal amigo na Tapada do Mocho, em Paço de Arcos.
Moram na Rua Maria Telles Mendes e eu perguntei-lhes se sabiam quem era.
Sabiam e tinham um genuíno orgulho em morar ali, um orgulho por todos os dias passarem por aquele nome que simboliza qualquer coisa de muito grande… o nome de uma mulher que se tornou uma heroína, o exemplo máximo de alguém que se sacrifica.
3.
Maria era guarda linha na Estação de Paço de Arcos.
No Verão de 1979, nos primeiros dias de julho, quando o comboio se aproximava da estação, Maria Telles Mendes ouviu os gritos de uma mulher.
Um dos seus sapatos, o salto alto que usava, prendera-se nos carris e o comboio estava já muito perto.
Maria, que tinha 45 anos, correu o mais rapidamente que pôde.
Conseguiu chegar a tempo de libertar a senhora do seu salto e de a empurrar para a berma, mas não conseguiu evitar que o comboio a projetasse.
4.
Eram 19 horas.
Havia movimento, só que ninguém se mexeu, só ela.
Maria Telles Mendes morreu pouco depois no hospital – centenas de pessoas acompanharam o seu funeral.
Era uma mulher alegre, não sei se tinha filhos ou era casada, mas a população de Paço de Arcos prometeu que um dia ela teria uma estátua.
E teve mesmo, uma escultura em bronze perto da Estação onde ouviu um grito e viu uma mulher com um salto preso nos carris.
Uma escultura em bronze e o nome de uma rua onde jantei um destes dias.
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