1.
Não sei quase nada sobre o homem de que te vou falar.
Apenas o que me contou quando me viu a sair do restaurante Toledo, no Lumiar, em Lisboa.
Nem mesmo sei como se chama, os únicos nomes que fixei na sua história são os da bisneta Aurora e de Alice, a que não cumpriu o que lhe prometera: morrer só depois dele.
2.
Estava triste.
Sozinho.
Ia a meio do ensopado de borrego que ali sabe a Alentejo e o ajuda a regressar a Reguengos de onde partiu quando ainda usava calções.
Dei logo com ele por ser um velho muito bonito.
Dá-me ideia de que os olhos eram grandes e claros, mas posso estar enganado.
Tinha um cabelo cuidado e trazia no dedo um anel brilhante que destoava, uma pérola das K-Pop que me obrigou ao sorriso.
3.
Morria de saudades de Alice.
Atenção que não é uma expressão ou uma frase de efeito, é mesmo assim – sente-se todos os dias mais afundado, como se uma energia invisível o estivesse a puxar para dentro, para um dentro qualquer.
Claro que existem os filhos, dois.
Mais os netos.
E uma bisneta, a Aurora que é o que lhe resta de fogo de artifício, três anos de uma inesgotável imaginação – não lhe passou pela ideia que podia tirar o anel das barbies coreanas, se a menina lhe pedira para não o fazer ele jamais o faria.
Óbvio.
4.
Será que não lhe perguntei como se chamava?
Ou esqueci-me do seu nome?
Era bonito.
Ia com o ensopado a meio da solidão.
E à frente tinha um prato vazio com talheres limpos como se Alice pudesse chegar para o levar a Reguengos ou de regresso ao dia em que se tocaram pela primeira vez.
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