1.
Esta é a história de um jornalista puro e de um homem bom.
José Plácido Júnior é uma pessoa única, talvez seja essa a sua principal condição…
…ou maldição…
Todos somos únicos, dir-me-ás.
Numa certa perspetiva, sim.
É verdade.
Mas depois, se colocarmos a lupa à superfície do que somos, a maioria de nós não se define pela originalidade.
2.
Plácido é único.
Assinou algumas das reportagens mais emblemáticas da história da revista Visão e do jornalismo português em democracia.
É um competente repórter de guerra, os seus perfis são completos e obsessivos no detalhe, a sua humanidade transparece nas entrelinhas do que escreve, do que nos faz sentir no que escreve.
Mas depois é invisível.
Nunca o vemos em bicos de pés, em fotografias ou vernissages.
Não há ninguém que seja tão assim…
…tão fora do que este tempo pede, do que nos exige.
Plácido é um anti-herói.
O meu vencido preferido.
Se Scorsese ou Coppola o conhecessem, realizariam um filme a partir dos seus abismos – buracos de tristeza que intuímos nos seus olhos escavados.
3.
Quando o conheci, no princípio da década de 1990, no semanário O Jornal, recebeu-me como mais ninguém.
Chamava-me Luís Miguel.
Continua a fazê-lo, é o único que o faz.
“Luís Miguel, vamos almoçar.”
E eu ia, miúdo de 19 anos, borrado de medo dos mestres, ia com ele.
Protegido por ele.
4.
O seu pai, o velho Plácido, fora jornalista desportivo e ia para a redação do Jornal e depois da Visão onde ficava à nossa espera para almoçar.
Os seus olhos eram claros, ao contrário do filho que os tinha castanhos como a mãe.
Nunca mais vi o seu velho pai, acredito que abalou.
Nunca lhe perguntei.
Como nunca lhe perguntei pela Teresa Pais, a mulher que me juram ter amado perdidamente.
Era muito nova a Teresa, ainda não chegara aos 50.
Um cancro arrastou-se no seu corpo e levou-a… o filho da puta.
Lembro-me dos textos que escrevia sobre o seu combate, sobre a perda do combate e a proximidade da morte.
Não conheci a Teresa, era jornalista.
Filha de um jornalista.
Casada com o Plácido.
5.
Eu fiz-me à vida e ele manteve-se na Visão.
Deixámos de nos frequentar.
Não sabia que a Teresa era sua mulher.
Que o José Plácido Júnior se deixara envelhecer por amor.
6.
Não conheço ninguém como ele.
Um jornalista puro.
Um contador de estórias.
Uma pessoa em quem podemos confiar.
Uma das poucas por quem eu arriscaria as mãos no fogo.
Um tipo humilde, talvez demasiadamente humilde.
Tanta gente a recolher louros, prémios e homenagens e ele, o grande Plácido Júnior, a fazer o seu trabalho, a contar das vidas e da condição humana e a regressar a casa, sem ligar a mais nada.
O meu anti-herói.
O meu jornalista preferido entre os vivos.
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