1.
O meu tio Luís era a melhor pessoa de toda a minha família paterna.
Luís, irmão do meu pai, foi sempre um desportista.
Jogou râguebi na juventude.
Licenciou-se e doutorou-se em Educação Física e tudo nele parecia distinto.
2.
Nos jantares de família destoava por ser discreto, pouco espaventoso, apaziguado.
Todos nós éramos o contrário, quase sicilianos, inquietos, histriónicos.
Sempre quis ser como ele.
Tão alto como ele.
Tão tranquilo como ele.
Tão bonito como ele.
Casou e viveu eternamente apaixonado pela minha tia Lena.
Também desejava, quando fosse grande, quando crescesse, ter um amor assim como o deles.
Apanhava-os a sorrir um para o outro.
E a Lena era igualmente maravilhosa…
…devem ter discutido, mas se os tivesse ouvido a dizer palavras que não fossem perfeitas, ter-me-ia surpreendido.
3.
O tio Luís foi viver para o Fundão.
Tornou-se importante na comunidade.
Era professor na Escola Secundária, ajudava os miúdos, ouvia-os e convencia-os ao sonho.
E ajudava os mais velhos.
Fazia-os mexer, chateava-os com a necessidade e urgência de viverem a vida na plenitude.
4.
Era saudável, o mais saudável da família.
Até que um dia recebemos a notícia de que estava doente.
ELA era o nome da doença.
Esclerose Lateral Amiotrófica.
Marcámos um almoço num restaurante italiano no bairro de Alvalade, em Lisboa.
Cheguei primeiro e vi-o pela janela a atravessar a rua amparado pela tia Lena.
5.
Entre esse almoço e o dia em que o visitámos no Fundão terão passado poucos meses.
Lena recebeu-nos com um sorriso mágico, como se nada fosse.
O tio Luís estava deitado na sala.
Não se mexia.
Nem um dedo, nem um músculo, só o olhar nos pedia ajuda ou desculpa.
Impressionou-me muito.
Chorei na casa de banho.
E saí risonho… como se nada fosse.
Quando morreu entrei no velório e a sua fotografia estava estacionada à entrada.
O melhor da família, o verdadeiro Luís Osório, o mais saudável e bonito, o mais tranquilo, o que sempre desejei ser…
…o que sempre desejara ser, abalou sem que eu lhe pudesse dizer tudo isto que agora te deixo.
Querida Tia Lena.
Abraço-te agora como quando era pequeno num Natal em família.
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