O verdadeiro Luís Osório

É um dos revolucionários da cultura nacional. Se Zeca é um Deus da esquerda cultural, Pedro Ayres Magalhães é a divindade mais luminosa no outro lado da margem. Um génio que fez silêncio.

O verdadeiro Luís Osório

É um dos revolucionários da cultura nacional. Se Zeca é um Deus da esquerda cultural, Pedro Ayres Magalhães é a divindade mais luminosa no outro lado da margem. Um génio que fez silêncio.

1.

O meu tio Luís era a melhor pessoa de toda a minha família paterna.

Luís, irmão do meu pai, foi sempre um desportista.

Jogou râguebi na juventude.

Licenciou-se e doutorou-se em Educação Física e tudo nele parecia distinto.

2.

Nos jantares de família destoava por ser discreto, pouco espaventoso, apaziguado.

Todos nós éramos o contrário, quase sicilianos, inquietos, histriónicos.

Sempre quis ser como ele.

Tão alto como ele.

Tão tranquilo como ele.

Tão bonito como ele.

Casou e viveu eternamente apaixonado pela minha tia Lena.

Também desejava, quando fosse grande, quando crescesse, ter um amor assim como o deles.

Apanhava-os a sorrir um para o outro.

E a Lena era igualmente maravilhosa…

…devem ter discutido, mas se os tivesse ouvido a dizer palavras que não fossem perfeitas, ter-me-ia surpreendido.

3.

O tio Luís foi viver para o Fundão.

Tornou-se importante na comunidade.

Era professor na Escola Secundária, ajudava os miúdos, ouvia-os e convencia-os ao sonho.

E ajudava os mais velhos.

Fazia-os mexer, chateava-os com a necessidade e urgência de viverem a vida na plenitude.

4.

Era saudável, o mais saudável da família.

Até que um dia recebemos a notícia de que estava doente.

ELA era o nome da doença.

Esclerose Lateral Amiotrófica.

Marcámos um almoço num restaurante italiano no bairro de Alvalade, em Lisboa.

Cheguei primeiro e vi-o pela janela a atravessar a rua amparado pela tia Lena.

5.

Entre esse almoço e o dia em que o visitámos no Fundão terão passado poucos meses.

Lena recebeu-nos com um sorriso mágico, como se nada fosse.

O tio Luís estava deitado na sala.

Não se mexia.

Nem um dedo, nem um músculo, só o olhar nos pedia ajuda ou desculpa.

Impressionou-me muito.

Chorei na casa de banho.

E saí risonho… como se nada fosse.

Quando morreu entrei no velório e a sua fotografia estava estacionada à entrada.

O melhor da família, o verdadeiro Luís Osório, o mais saudável e bonito, o mais tranquilo, o que sempre desejei ser…

…o que sempre desejara ser, abalou sem que eu lhe pudesse dizer tudo isto que agora te deixo.

Querida Tia Lena.

Abraço-te agora como quando era pequeno num Natal em família.

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