Os funcionários públicos são seres humanos

Não há quem leve mais porrada do que os funcionários públicos. São tratados como gordura e carne para canhão.

Os funcionários públicos são seres humanos

Não há quem leve mais porrada do que os funcionários públicos. São tratados como gordura e carne para canhão.

1.

Nunca fui funcionário público, tenho uma empresa e acredito na iniciativa privada.

Colocadas as ressalvas, é chocante ver a forma como os trabalhadores do Estado são tratados pela opinião pública…

… como se fossem os responsáveis pela falta de progresso do país, como se ali estivesse a explicação para a nossa ruína.

2.

Há sempre quem ponha o dedinho no ar para gritar que são desleixados.

Preguiçosos.

Incompetentes.

Privilegiados.

Que faltam ao trabalho.

Que fazem pontes, pontinhas e pontais.

Os funcionários públicos levam porrada de quase toda a gente que não trabalha para o Estado.

Levam dos jornalistas.

Levam dos políticos quando estão na oposição.

Levam do povo anónimo e dos doutorados em Chicago.

Levam dos humoristas e dos capitalistas.

3.

Têm que ouvir a liturgia de que os melhores estão no privado.

Que os que arriscam estão no privado.

Há força de se dizer tantas vezes acabamos por acreditar, mas é justo que se diga que é uma mentira grotesca.

Para se ser médico ou enfermeiro ou auxiliar de ação médica no Serviço Nacional de Saúde é preciso acreditar que se está a contribuir para o bem comum.

Para se ser professor numa universidade ou escola do Estado é necessário acreditar no que se está a fazer – e há milhares de professores magníficos que se sacrificam todos os dias.

Como há polícias que arriscam a pele.

Bombeiros que dão o corpo ao manifesto.

E pessoal das câmaras e juntas de freguesia que são o elo de proximidade com populações isoladas ou esquecidas.

4.

É preciso ter estofo para aguentar o ruído mais os humores dos políticos no poder e as mudanças feitas em função das circunstâncias de cada momento.

Os funcionários públicos estão sempre com o coração nas mãos à espera que alguém corte nas despesas. É gente que se senta no sofá a ver as notícias e vê políticos no estrangeiro com motosserras para simbolizar a matança das gorduras.

Fala-se de pessoas como se fossem gordura.

Nunca fui funcionário público, mas tenho um enorme respeito por muitos e muitos e muitos funcionários públicos.

Levar cacetada todos os dias cansa muito.

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