1.
Há muitos anos que penso em dogmas.
Frases ou conselhos que são garantidos como verdade certa, mas que nunca são questionados.
Nos últimos anos multiplicaram-se os estudos e novas verdades sobre esta coisa de ser mãe ou pai – o que devemos fazer, o que nos é proibido, o que prejudica os nossos filhos, o que os beneficia, o que nos favorece ou nos salva.
Criou-se uma verdadeira indústria onde muitos enriqueceram à conta da ansiedade dos pais, a infame culpa de não estarmos à altura de o ser.
É irritante, perversa e diabólica esta indústria da perfeição.
2.
Há pediatras que se especializaram em receitar mezinhas psicológicas.
Psicólogos que arregalam os olhos quando lhes contamos embaraçados que o nosso filho de dois anos e meio ainda dorme connosco.
Lojas que nos vendem camas e alcofas inteligentes.
Refeições biológicas, consultores de sono, gente que é paga para nos montar o quarto perfeito para o bebé.
E outra gente paga em redes sociais para validar o que sentimos, para não termos medo, para não gritarmos, para contarmos aquela história, para cantarmos aquela canção, para comprarmos aquele body naquela loja, para não nos esquecermos de nós e do nosso parceiro, para pedirmos ajuda sem termos vergonha…
…e mais
Temos que ser bons pais.
Boas mães.
O quarto deve ter aquela luz.
O cheirinho deve ser aquele.
3.
Vamos lá a ver.
E falo-te com a superioridade moral de ter quatro filhos e dois enteados.
Todos foram educados da mesma maneira, todos são diferentes.
Fizemos o que achámos ser o melhor a cada momento.
Com amor, com proximidade, bom-senso e respeito pela individualidade de cada um, mas sendo o que somos, na nossa condição imperfeita e vulnerável.
Sem procurarmos ser o que não somos.
Quando queriam ir para a nossa cama foram para a nossa cama.
Quando desejámos que fossem para a nossa cama, foram para a nossa cama.
E tudo o resto.
Com coisas más e boas.
Gritos e abraços.
Discussões à mesa, desespero e felicidade.
Ser pai e ser mãe é ser exemplo e combate.
É fazer tudo pelos nossos filhos, mas sem nunca abdicarmos de nós.
É uma confusão, uma oportunidade e uma aventura.
É vida e não um conto de fadas num quarto feito por Inteligência Artificial ou com conselhos de pessoas que não fazem ideia nenhuma do que é a vida.
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