Os que enriqueceram à custa da ansiedade dos pais

Multiplicam-se os estudos sobre ser mãe ou pai – o que devemos fazer, o que nos é proibido, o que prejudica ou beneficia os nossos filhos. Uma indústria da perfeição ou um ridículo absoluto?

Os que enriqueceram à custa da ansiedade dos pais

Multiplicam-se os estudos sobre ser mãe ou pai – o que devemos fazer, o que nos é proibido, o que prejudica ou beneficia os nossos filhos. Uma indústria da perfeição ou um ridículo absoluto?

1.

Há muitos anos que penso em dogmas.

Frases ou conselhos que são garantidos como verdade certa, mas que nunca são questionados.

Nos últimos anos multiplicaram-se os estudos e novas verdades sobre esta coisa de ser mãe ou pai – o que devemos fazer, o que nos é proibido, o que prejudica os nossos filhos, o que os beneficia, o que nos favorece ou nos salva.

Criou-se uma verdadeira indústria onde muitos enriqueceram à conta da ansiedade dos pais, a infame culpa de não estarmos à altura de o ser.

É irritante, perversa e diabólica esta indústria da perfeição.

2.

Há pediatras que se especializaram em receitar mezinhas psicológicas.

Psicólogos que arregalam os olhos quando lhes contamos embaraçados que o nosso filho de dois anos e meio ainda dorme connosco.

Lojas que nos vendem camas e alcofas inteligentes.

Refeições biológicas, consultores de sono, gente que é paga para nos montar o quarto perfeito para o bebé.

E outra gente paga em redes sociais para validar o que sentimos, para não termos medo, para não gritarmos, para contarmos aquela história, para cantarmos aquela canção, para comprarmos aquele body naquela loja, para não nos esquecermos de nós e do nosso parceiro, para pedirmos ajuda sem termos vergonha…

…e mais

Temos que ser bons pais.

Boas mães.

O quarto deve ter aquela luz.

O cheirinho deve ser aquele.

3.

Vamos lá a ver.

E falo-te com a superioridade moral de ter quatro filhos e dois enteados.

Todos foram educados da mesma maneira, todos são diferentes.

Fizemos o que achámos ser o melhor a cada momento.

Com amor, com proximidade, bom-senso e respeito pela individualidade de cada um, mas sendo o que somos, na nossa condição imperfeita e vulnerável.

Sem procurarmos ser o que não somos.

Quando queriam ir para a nossa cama foram para a nossa cama.

Quando desejámos que fossem para a nossa cama, foram para a nossa cama.

E tudo o resto.

Com coisas más e boas.

Gritos e abraços.

Discussões à mesa, desespero e felicidade.

Ser pai e ser mãe é ser exemplo e combate.

É fazer tudo pelos nossos filhos, mas sem nunca abdicarmos de nós.

É uma confusão, uma oportunidade e uma aventura.

É vida e não um conto de fadas num quarto feito por Inteligência Artificial ou com conselhos de pessoas que não fazem ideia nenhuma do que é a vida.

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