1.
Orgulho-me da nossa História.
Dos nossos heróis, mas também dos cobardes, dos que morreram anónimos, dos loucos e maquiavélicos.
Uma História, das famílias e dos países, é sempre uma soma de interesses e sentimentos contraditórios.
Fomos o primeiro país a abolir a pena de morte e o último a abandonar a escravatura.
Fomos os precursores da diplomacia moderna e o resistimos mais do que ninguém a matar o colonialismo.
2.
De todas as personagens da nossa epopeia, talvez o Infante D. Henrique seja o mais difícil de compreender – mesmo sendo um homem do seu tempo e, por isso, impossível de comparar a partir dos nossos valores e padrões.
Por um lado, o estratega que criou os alicerces da expansão e do Império. O que com engenho desenvolveu as caravelas e a moderna cartografia, o que conquistou Ceuta e dobrou o Bojador.
Por outro lado, o que sacrificou o irmão mais novo em Tânger ou o que enriqueceu à custa do tráfico de escravos instituindo a escravatura como um negócio de Estado.
3.
Só há muito pouco tempo li a Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, a sua descrição do primeiro grande desembarque em Lagos, no verão de 1444.
Dos negros a serem desempilhados da caravela.
Das grilhetas e correntes.
Dos chicotes a cortarem o corpo de mães que esperneavam para que os filhos delas não se separassem.
Dos gritos que Zurara descreve como impossíveis de esquecer.
E do Infante D. Henrique montado a cavalo a ver tudo e a ter o privilégio de ser o primeiro a escolher os pretos que levava para as suas terras e as mulheres que levava para as suas casas.
E depois a fazer as contas aos que restavam, aos que eram comprados – o Infante ganhava vinte por cento em cada venda, o seu quinto consagrado na lei.
Havia também os que não eram vendidos, os que não tinham valor, os que eram mortos e sangrados em valas comuns como animais inférteis.
4.
O Mercado de Escravos é um museu que vale a pena visitar em Lagos, a cidade portuária que foi o primeiro santuário de escravos da Europa moderna.
A face oculta dos Descobrimentos.
Passaram muitos anos, que são poucos.
Um sopro de tempo na escala humana.
Um sopro ainda menor na escala da vida no planeta.
Se experimentares ler a crónica de Zurara, e se fechares os olhos, conseguirás ouvir nitidamente os gritos daquelas mães e o Infante a trote num cavalo que não era alado.
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