1.
Pedro Ayres Magalhães tem 67 anos, o que é estranho.
Um revolucionário parece sempre mais jovem, é como se o envelhecimento estivesse dependente da morte ou cansaço das ideias que um dia fez nascer.
Por isso, mantém-se jovem.
Porque os Heróis do Mar insistem em tresandar a novo e as canções de Madredeus nunca foram substituídas, continuam a ser as que mais se aproximam do que intuímos ser a identidade portuguesa.
2.
Pedro é demasiadamente novo para ter deixado de tocar.
De compor.
De aparecer.
Surgiu há uns meses, como sempre lúcido, inteligente, acima da espuma…
…a sua voz ouviu-se na defesa da Academia dos Amadores de Música, escola onde aprendeu a tocar.
E a ouvir.
3.
Escutámos a sua voz e os seus argumentos.
Mas nunca mais o ouvimos a tocar.
Não sei quando subiu a um palco pela última vez.
Sei que não esteve nos concertos dos Resistência, outra ideia que nasceu dentro da sua cabeça.
O silêncio a que se impôs entristece-me, provoca-me perguntas e o desejo que volte.
4.
Pedro Ayres Magalhães é um revolucionário que se fechou numa concha de onde não sai.
Não interessa a razão.
Pode ter sido por amor.
Por doença.
Por desânimo.
Por sentir, como Brel, que os aplausos lhe são tão insuportáveis como a pressão de alimentar uma indústria que deixou de lhe interessar.
Não faço a mais pequena ideia.
5.
Tem 67 anos e mudou a música portuguesa com inquietude, cultura e talento.
Se Zeca Afonso é o Deus da esquerda cultural, Pedro é a divindade mais luminosa no outro lado da margem.
Com os Heróis do Mar provocou um terramoto ideológico.
Com os Madredeus resgatou a alma portuguesa.
Foi aplaudido nos palcos de todos os mares, mas guardou a guitarra e desapareceu de cena num último ato subversivo.
Numa época em que quase todos precisamos de dar provas de vida, Pedro Ayres Magalhães continua onde sempre esteve: por sua conta, solitário e passageiro único da sua própria viagem.
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