1.
Sei que é uma forma pouco natural de iniciar um postal do dia.
Mas hoje será diferente, preciso de fazer-te uma pergunta:
– Gostarias de viver para sempre? Se pudesses, se te colocassem um papel à frente, assinavas a tua imortalidade?
2.
É ainda uma pergunta académica, mas deixou de pertencer ao domínio da ficção científica: há milhares de milhões de euros, dólares e ienes a circular entre laboratórios científicos.
Uns à vista de todos, em universidades como Stanford ou em empresas como a Google.
Outros em laboratórios secretos e financiados por autocratas e milionários – biólogos da longevidade, alquimistas modernos, engenheiros químicos, físicos.
E há robots a pensar também no tema, a misturar enzimas, a desafiar Deus.
Tudo para que se possa viver mais anos.
Ou talvez para sempre.
3.
Gostarias?
Assinavas de cruz?
Posso falar por mim.
Não o faria.
Prefiro mil vezes morrer a ficar vivo para sempre.
Acredito mais na morte do que naqueles que desejam prolongar a vida – prefiro o mistério do que não conheço ao milagre humano que sabemos o que nos traz.
Prefiro partir a ver morrer os que amo.
Os filhos e netos.
Mas eles, se todos vivessem, não morreriam também, dir-me-ás…
Não é verdade, alguém teria de morrer para que outros nascessem.
Se todos vivessem, e continuássemos a nascer, ao fim de 20 anos não caberíamos aqui.
Pois, é isso.
A imortalidade seria um privilégio de ricos, de muito ricos.
Que vivendo para sempre descobririam a maneira de se tornar mais tiranos, mais levianos, mais amorais.
Dentro das suas cabeças imortais tornar-se-iam deuses.
E comportar-se-iam como deuses tiranos.
Endoideceriam para sempre.
Se eles são assim com uma esperança de vida limitada, imagina como seriam se soubessem que eram imortais?
Não me peças para viver para sempre.
Eu quero morrer no dia em que me estiver destinado.
Se possível sem sofrimento, durante o sono e daqui a muito tempo.
Viver o mais possível, até aos 100 anos.
Depois quero morrer, ser levado por um anjo num filme a preto e branco de Wenders.
Não quero ser congelado em azoto líquido.
Não quero que criem avatares de mim próprio.
Desejo somente ter a hipótese de fazer a viagem para a imensidão que me transcende.
Se não há mais do que o ser humano, se isto é apenas biologia, então não há mais nada que deseje saber.
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