Que os filhos nunca duvidem que a mãe é melhor do que eu

Um postal sobre a mulher por quem Luís Osório foi escolhido e a quem escolheu. A eternidade pode não durar para sempre no amor, mas há coisas ainda mais importantes do que isso.

Que os filhos nunca duvidem que a mãe é melhor do que eu

Um postal sobre a mulher por quem Luís Osório foi escolhido e a quem escolheu. A eternidade pode não durar para sempre no amor, mas há coisas ainda mais importantes do que isso.


1.
A Ana é a pessoa por quem fui escolhido e a mulher que escolhi para o resto da minha vida.

Não sabemos nunca se o resto é para sempre. Várias vezes achámos que não, somos os dois solitários, os dois um vulcão agitado, os dois opostos em tantas e tantas coisas, os dois inquietos, os dois nem sempre felizes e com atração para a falha.

Mas também apaixonados pelo outro nem sempre da forma como os livros nos ensinam. Estamos juntos há 12 anos e não há ninguém que admire mais. A Ana é uma artista. Os seus olhos veem o que eu não consigo, os seus quadros são tocados por uma magia que não parece ser daqui, os doentes viram a cabeça quando ouvem a sua voz no corredor, todos respiramos fundo e sorrimos quando ela mete as chaves para abrir a porta de casa.

2.

A Ana é médica.

E encontrou o lugar perfeito para estar.

O lugar dos desvalidos, dos que não têm para onde ir, dos que vivem os seus últimos dias, dos que estão no fundo dos fundos.

Em mim a defesa dos excluídos é real, mas teórica.

Na Ana a defesa dos excluídos é real e prática.

Onde me agonio com o cheiro, ela não o sente.

Onde encontro forma de me proteger com palavras mansas, ela abraça.

3.

A Ana é a mãe dos meus filhos mais novos – o Afonso e a Benedita, dois vulcões potenciados pela lava permanente do pai e da mãe.

São os nossos amores ou estão para lá disso.

Tem também a Leonor e o João, meus filhos de outra maneira.

Nela tudo é combate.

Não descansa, não dá folga à exigência, à responsabilidade e ao cansaço que nem sempre a poupa.

Adormece rapidamente.

Continua a acordar assim que ouve um filho a virar-se na cama.

Acredita em Deus, sabe todas as orações, gosta de cantar e preocupa-se comigo…

… com o que como, com o que bebo, com o que escrevo, com o que penso, com os projetos por fazer, feitos ou imaginados.

4.

Quis escrever este postal para te dizer o quanto me orgulhei da homenagem que lhe fizeram na Santa Casa da Misericórdia.

Uma homenagem pensada pela Irmandade da Misericórdia com a presença do provedor da Santa Casa e do provedor da Irmandade.

O quanto me orgulhei por ter visto o seu maravilhoso trabalho, os seus quadros e lençóis, nas paredes e no espaço mítico de São Roque – ainda lá estão se quiseres ver.

O quanto me orgulhei com as palavras de José Souto de Moura, ex-Procurador Geral da República.

O quanto me orgulhei por ver os nossos pequeninos felizes com a felicidade da mãe.

Uma mãe talentosa, generosa e bem melhor do que eu.

Que nunca duvidem disso.
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