1.
Nenhum padre chegou a Patriarca de Lisboa sendo tão desconhecido do país.
Rui Valério não está no mesmo patamar mediático de Cerejeira, António Ribeiro, Policarpo ou Manuel Clemente.
Todos eles, de uma maneira ou de outra, eram figuras reconhecidas pelos católicos e pelas elites políticas, religiosas, sociais e culturais.
Nomeado por Francisco, no verão de 2023, o novo Patriarca, outra originalidade, passados dois anos e meio, ainda não é cardeal, o que vai ao encontro desta curiosa constatação.
2.
Mas Rui Valério, que não conheço pessoalmente, é de todos o que me desperta mais curiosidade e encantamento.
Pela simplicidade, tão próxima do anterior Papa.
Pela proximidade com os mais frágeis, um caminho que faz por percorrer desde que se conhece…
…desde que decidiu ser padre e Monfortino, ordem baseada na pobreza evangélica, na caridade pelos mais fracos, no desapego, na obediência e no culto a Maria.
O bispo D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa, está todos os dias em lugares que não vêm na agenda.
Com os enfermos.
Com os loucos.
Com os imigrantes.
Nas sopas de pobres.
Entre os rejeitados.
3.
Tem também assumido a defesa intransigente dos que foram abusados sexualmente.
Fala de Jesus como matriz de tudo o que defende, afinal o filho de Deus é um amigo íntimo desde que se lembra.
Repara, Rui Valério nasceu a 24 de dezembro, véspera de Natal.
Só tinha, por isso, duas hipóteses: ou rejeitar Jesus, por não suportar ser usurpado do direito a ter um aniversário só para si, ou aliar-se ao concorrente.
O menino Rui fez do menino Jesus um amigo a quem passou a convidar todos os anos para o seu aniversário.
4.
Rui que corria pelo Vale das Antas, pela Pederneira e pela sua Urqueira, muito perto de Fátima, na certeza absoluta de que todos aqueles vestígios arqueológicos eram obra de Deus.
Nas férias ia para Trás-os-Montes, onde a avó Ester lhe dizia sempre que as filhós deviam fazer-se finas e que não havia prato melhor do que uma boa alheira feita com tudo a que tinham direito.
5.
Um dia estarei com ele e farei as perguntas de que não sei a resposta.
Dos milagres que encontrou, das sombras que teme, dos sinais de esperança a que nos devemos agarrar.
Tenho curiosidade por este homem que, já bispo, não deixou de partilhar quarto com outros padres.
Intelectual, próximo das pessoas, formado em Filosofia e Teologia, discreto, corajoso e de ação.
O padre que todos os anos convida Jesus para o seu aniversário.
Um intelectual que pensa e faz.
Que diz, mas confronta.
Por mim, estou convencido.
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