1.
Sérgio Sousa Pinto irrita-me profundamente.
Na mesma proporção que me seduz, surpreende e faz pensar.
Não gosto da arrogância, da agressividade desmedida, de uma cultura que em si é mais arma de ostentação do que partilha.
Mas Sérgio é tão mais interessante do que a maioria, tão menos redondo e tão mais livre, que me culpabilizo pela beatice.
2.
Já defendi que o homem devia sair do PS.
E vou aos arames quando me aparece em fotografias a fumar charuto ou de suspensórios.
Apetece-me soltar os fígados e rebentar-lhe com a prosápia.
No fundo, apetece-me criticá-lo por ser, da cabeça aos pés, o que nos falta – um pensador sem constrangimentos, um tipo fora de rebanhos e credos, um intelectual incómodo e uma personalidade inimitável.
É um contrassenso defender todas as semanas que estamos entrincheirados em verdades únicas e parecidos uns com os outros e…
depois…
…quando nos surge alguém que toca a bola de uma forma diferente, criticá-lo por o fazer.
Não é justo.
3.
Sérgio Sousa Pinto é um solitário.
Como Vasco Pulido Valente ou Salgado Zenha o foram.
Dá-me ideia, mas pode ser errada, de que já passou por muitas inquietações, dúvidas e que em si a melancolia é um estado permanente.
Dá-me ideia de que carrega um peso desmedido, que corta a direito, mas não lida na perfeição com o que vai deixando pelo caminho, incluindo fantasmas, inimigos e derrotas.
Dá-me ideia, por fim, que cresceu na justa expetativa de que podia ser tudo, atingir todos os objetivos, mas a vida encarregou-se de o travar…
…afinal, o poder e a liberdade não são irmãos gémeos, diria que na maioria dos casos nem familiares próximos.
4.
Sérgio Sousa Pinto é um dos nossos melhores.
Era o preferido de Mário Soares.
Escreveram um livro juntos e durante vários anos jantavam várias vezes por semana em Bruxelas.
Mário Soares, que conheci um bocadinho, falou-me do Sérgio.
Colocava-o no alto da montanha.
Não por ser parecido consigo, mas por ser inteligente, livre e a prova de que o futuro estaria assegurado.
Ah, e Sérgio nunca deixava que o pão faltasse a Soares.
O fundador do PS era doido por pão e em Bruxelas vários restaurantes não o tinham.
Quando Sérgio antecipava tal ignomínia passava antes por uma padaria e levava as carcaças suficientes para que nada lhe faltasse.
As suficientes para poderem conspirar pela noite…
…uma conspiração feita de livros, amigos, estórias, pintura e cinema.
Raramente falavam de política.
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