Os teus pais, antes de ti

Sabemos que os nossos pais e avós existiram antes de nós. Tiveram uma vida que não nos incluía. Não sabiam o nosso nome, não nos imaginavam sequer. Sabemos, mas não é linear.

Os teus pais, antes de ti

Sabemos que os nossos pais e avós existiram antes de nós. Tiveram uma vida que não nos incluía. Não sabiam o nosso nome, não nos imaginavam sequer. Sabemos, mas não é linear.

1.

Os meus pais existiram antes de mim.

Começar assim é um bocadinho ridículo, claro que sei isso.

E tu sabes que aconteceu o mesmo com o teu pai e a tua mãe – um e o outro já existiam antes de ti…

2.

Sabendo-o, e isto é a gente a conversar, continua a ser incrível quando os penso sem mim, antes de eu existir.

Não sei como a minha mãe brincava quando brincava, não sei se chegou a fazê-lo…

…era uma criança quando caiu das escadas e precisou de ser internada.

Não sei se desmaiou, desconheço o tamanho dos seus gritos, não vi a minha avó a correr pelas escadas baixo, não consigo imaginar a avó Joaquina jovem a correr pelas escadas…

…não sei se pensou na ideia de ser minha mãe nos dez anos em que esteve internada num sanatório – se pensou nisso em algum momento, se me antecipou num qualquer sonho secreto.

3.

Idealizo o encontro dela com o meu pai.

As conversas que não ouvi, as loucuras que fizeram, o primeiro beijo, terá sido o único?

Reconstruo o tempo de Paris, o Boulevard St. Germain, o Pigalle, os filósofos nas esplanadas, o dia em que nasci sem nascer.

O dia em que fizeram amor…

…vem-me à cabeça que se amaram à sombra de uma valsa de Brel ou na claridade desesperada de Piaf.

4.

Enceno mil vezes a cena final da sua relação, quando ele lhe pediu que desistisse de mim.

Eram muito novos, uma criança estragaria o futuro.

A mãe não quis ouvi-lo.

Correu sem destino para fora de pé, comigo na barriga e sem mais, sem dinheiro, sem a sua história de amor, só eu e ela.

A mãe contou-me que chorou meses.

De alegria e de tristeza.

Gostava de a ter visto comigo na barriga.

Gostava de lhe ter respondido às perguntas que me fazia, que todas as mães fazem aos seus bebés ainda invisíveis.

Ter-lhe-ia pedido para não chorar.

Ter-lhe-ia dito o que nunca disse.

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