1.
Tenho curiosidade em entender como as plataformas de encontros funcionam, mas nunca entrei.
Não posso, por motivos vários e todos fortes.
Bem, o principal é o óbvio, sou casado.
Só que nada na vida me pode ser indiferente, afinal escrevo sobre a vida, sobre paradoxos, desejos, trambolhões e nódoas negras, esperanças e amor.
Há amigos que se apaixonaram nas plataformas.
E outros que se viciaram nas relações rápidas, uma noite e já está, uma busca incessante, uma sexualidade que passou a ser aditiva e que nunca dá bom resultado…
… já Kierkgaard o tinha escrito, em 1943, no “Diário de um Sedutor”.
2.
Como não posso entrar nas aplicações, pergunto.
Pareço o Salazar a tirar nabos da púcara dos filmes que lhe interessavam – mandava a Maria às matinés para que depois, nos gélidos serões de São Bento, ela lhe contasse a história timtin por tintim.
Já me descreveram vários encontros.
O melhor de todos, o que verdadeiramente me deixou sem ponta de sangue, foi o de um casal que marcou o primeiro encontro após ter trocado mensagens sobre mim e um dos meus livros, o “Mãe”.
Correu tão bem que jantaram no dia seguinte.
E continuou a correr bem pois, na noite fatídica, um deles não foi dormir a casa.
3.
Vão casar, imagina.
E contaram-me os pormenores pelo Messenger.
Onde é a festa, que estão felizes, que gostavam de me agradecer, que tenho lugar na mesa dos noivos, que vão emoldurar a capa do livro num recanto da sala.
É muito maluco, não é?
Na minha vida acreditei ser algumas coisas, mas jamais me passou pela cabeça que um dia seria um cupido no Tinder.
Podia ser pior.
Imagina que tinha escrito o Exorcista, o Drácula ou o Psicopata Americano?
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