A mulher de José Cardoso Pires não é apenas isso

Por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher, uma frase que é uma falácia, uma perpétua condenação à subalternidade. Contamos hoje a história de Edite, a que nunca esteve atrás.

A mulher de José Cardoso Pires não é apenas isso

Por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher, uma frase que é uma falácia, uma perpétua condenação à subalternidade. Contamos hoje a história de Edite, a que nunca esteve atrás.

1.

José Cardoso Pires é uma das maiores figuras da história da literatura portuguesa.

Conheci-o.

Fui a sua casa, estive na sua sala, mostrou-me o lugar onde guardava revistas secretas, levou-me para os copos e ensinou-me alguns segredos dos efeitos de um bom whisky quando nos chega à cabeça.

Chateou-se comigo por causa da dependência de adjetivos que, para ele, era um sinal de que desejava mais ser amado do que sacrificar-me ao purgatório dos criadores.

2.

Mas este Postal não é sobre o José.

Por uma vez que seja, é justo que a Edite possa estar no centro.

Não por ser a sua companheira de uma vida, não por ser o referencial de estabilidade de um obsessivo que viajava por palavras que nunca lhe pareciam prontas e pelas madrugadas onde se perdia e se encontrava.

Preciso que a Edite não seja apenas a que esteve sempre disponível para se apagar em nome da genialidade do homem que amava – preciso que não seja apenas a que o tratou minuto a minuto quando Cardoso Pires entrou numa profunda valsa lenta ou perdeu a memória.

3.

Ela não se chama Edite Cardoso Pires, embora todos a tratem assim.

Não.

A Edite, é Maria Edite Pereira.

Mulher corajosa e independente que nunca deixou de trabalhar como enfermeira num lugar de morte, mas também de esperança, o IPO de Lisboa.

4.

Edite, irmã de Vasco da Conceição, escultor comunista, prisioneiro nas prisões políticas de Salazar, muito mais velho do que ela, quase vinte anos.

Foi no atelier que Vasco partilhava com Júlio Pomar, que conheceu José, em 1948.

Tinha 22 anos.

Caminharam juntos, sempre.

Foi a única âncora de Cardoso Pires, a sua Ítaca.

Mas foi mais do que isso, alguém que depois da morte do marido continuou a fazer o melhor que podia, a ser o melhor que podia.

Sem falhas, sem aparato, num silêncio desarmante.

Ela e as duas filhas.

A Ana e a Rita.

E a casa onde folheei revistas secretas numa sala que era dos dois.

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