Tim fez 65 anos, mas continuo a vê-lo à porta dos liceus

A voz dos Xutos e Pontapés é o exemplo máximo de alguém a quem o estrelato nada alterou na sua personalidade. Na semana em que Tim fez 65 anos, o Postal fala-lhe desse milagre.

Tim fez 65 anos, mas continuo a vê-lo à porta dos liceus

A voz dos Xutos e Pontapés é o exemplo máximo de alguém a quem o estrelato nada alterou na sua personalidade. Na semana em que Tim fez 65 anos, o Postal fala-lhe desse milagre.


1.
Não há nenhum vocalista como o Tim.

Tenho muitas saudades do Zé Pedro, um ícone com um sorriso maior, mas o Tim é a única figura que jamais poderia falhar nos Xutos e Pontapés.

A sua voz vem dos lugares onde se sofre.

Dos estaleiros, das fábricas, dos portos, dos subúrbios do punk e dos excluídos.

2.

Quando os Xutos lançaram o primeiro disco aquele miúdo alentejano foi voz dos que não tinham bilhete, dos que ficavam à porta de Lisboa ou do Porto, dos condenados a um destino sem esperança.

Naqueles primeiros anos, os Xutos compuseram “Esquadrão da Morte”, “Remar Remar”, “Mãe” ou “Morte Lenta”.

Naqueles primeiros concertos não estavam mesmo para brincadeiras – os seus espetáculos encheram pequenas salas e depois todas as outras. Tornaram-se mensageiros de um novo tempo, de uma nova música de intervenção.

3.

Tiveram muito sucesso.

Continuam a tê-lo.

É verdade que envelheceram, que se tornaram mais doces, que cantaram outro tipo de canções, que amaciaram.

Mas no essencial continuam os mesmos.

O Tim continua a o mesmo.

Acaba de fazer 65 anos, o que é incompreensível – não era suposto que nele a idade corresse.

A sua voz continua única.

Saída do fundo dos lugares sem eco.

4.

E o Tim podia estar a borrifar-se para as pessoas.

Podia deixar de aceitar ir a escolas, receber maquetes de miúdos, deixar de frequentar os lugares onde bandas tocam pela primeira vez. Ninguém lhe levaria a mal que dissesse que estava cansado.

Só que não.

O Tim continua a ir.

Há uns meses passei por ele quando entrava no Liceu Camões. Havia alunos à sua espera.

Autógrafos.

Abraços, promessas de acordes que lhe iam ser mostrados.

E ele lá estava.

Disponível, jovem, rocker.

Ainda o ouvi dizer – “Bora lá!”

Como se estivesse a começar a carreira.

Como se aqueles miúdos estivessem no mesmo degrau da mesma escadaria.

“Bora lá!”

Incrível e maravilhoso.
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