Um homem com um dente de ouro foi o principal assassino da República

Um homem com um dente de ouro executou várias figuras da República, a começar pelo primeiro-ministro. Os historiadores chamaram a “Noite Sangrenta” a essa madrugada de 1921.

Um homem com um dente de ouro foi o principal assassino da República

Um homem com um dente de ouro executou várias figuras da República, a começar pelo primeiro-ministro. Os historiadores chamaram a “Noite Sangrenta” a essa madrugada de 1921.

1.

Neste Dia de Portugal e de Camões não te proponho a Ilha dos Amores ou qualquer outra passagem dos Lusíadas.

Vou fazer outra coisa, falar-te de uma tragédia decisiva, de uma madrugada em Lisboa que ficou conhecida como “Noite Sangrenta”.

O dia mais hediondo de toda a história da I República.

2.

O ano é 1921 e o mês outubro.

Na madrugada de 19 para 20, de quarta para quinta-feira, o primeiro-ministro António Granjo, há 50 dias no cargo, pede a demissão ao Presidente da República, António José de Almeida.

Há um ambiente de cortar à faca.

Liberato Pinto, coronel da GNR e ex-chefe de governo, fora condenado em Tribunal Militar e corria o rumor de que o governo de Granjo se preparava para extinguir a Guarda.

Ao ver-se isolado e com as polícias revoltadas na rua, Granjo pede a demissão.

3.

Nessa mesma madrugada, uma carrinha preta percorre as ruas de Lisboa.

É um cabo que dá ordens dentro da “camioneta fantasma”.

Tem no bolso um papel com nomes e moradas.

O lugar onde está o primeiro-ministro.

Mas também as moradas de Machado Santos, um dos que proclamou a morte da Monarquia no palanque dos heróis republicanos.

Ou de José Carlos da Maia, outro republicano ilustre e corajoso.

4.

O cabo chamava-se Abel Olímpio.

Tinha um dente de ouro na frente da boca.

Nascera numa freguesia de Moncorvo e tinha menos de trinta anos e várias outras moradas de outros republicanos ilustres.

Foi buscá-los a todos.

E a todos levou para o Arsenal da Marinha.

5.

Foram espancados.

Mutilados.

Desfeitos à biqueirada.

E o primeiro-ministro António Granjo ainda mais do que os outros.

Ficou irreconhecível.

Baleado nas escadas do Arsenal.

Pontapeado por todos à vez.

Trespassado por uma espada.

E exibido para que ninguém esquecesse o destino do rosto de um traidor da Pátria.

6.

O “Dente de Ouro” foi preso.

Ficou alguns anos detido e foi visitado por Berta, viúva de Carlos da Maia.

Fez-se amiga, ganhou a sua confiança e conseguiu saber quem lhe dera ordens e o papel com as moradas dos que eram para executar.

Escreveu um livro com a confissão.

Tinham sido figuras ligadas à Monarquia e a setores ortodoxos e conservadores que desejavam que a República ardesse na desordem e no caos.

7.

“Dente de ouro” foi libertado e desapareceu das vistas.

Nunca se soube quando e onde morreu.

Evaporou-se.

E a República nunca mais conseguiu livrar-se da ideia de ser um regime sem segurança, rei e roque.

É bem provável que o Estado Novo, quatro anos e meio depois, não tivesse acontecido sem esta mortandade numa madrugada que se perdeu da memória.

Bom Feriado.

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