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Postal do Dia

Luís Osório | 24 jun, 2025, 18:50

Vítor de Sousa não pode deixar de abrir a porta

Afinal, o julgamento do ano não é o de Sócrates ou Ricardo Salgado. Afinal, o povo português prefere mil vezes acompanhar os Anjos na sua descida ao inferno. Não há pipocas que resistam.

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Postal do Dia

Luís Osório | 24 jun, 2025, 18:50

Vítor de Sousa não pode deixar de abrir a porta

Afinal, o julgamento do ano não é o de Sócrates ou Ricardo Salgado. Afinal, o povo português prefere mil vezes acompanhar os Anjos na sua descida ao inferno. Não há pipocas que resistam.


1.
Querido Vítor de Sousa…

… não há nada que se possa fazer, só tu poderás sair da absoluta tristeza, da absoluta escuridão, do absoluto sofrimento em que estás.

Os teus amigos alertaram publicamente para a necessidade de te batermos à porta, de te dizermos que és especial, único.

Receio que isso não seja suficiente.
Sei que deves estar a receber milhares de mensagens de gente que gosta de ti e até dos que, nestas ocasiões, adoram espalhar palavras pelas feridas, dá-lhes prazer serem hipócritas.

2.
Estou a tocar à campainha sabendo que não tenho nada de substancial para te dizer.

Já escrevi tantas vezes sobre a depressão, sei o que é estar aprisionado num buraco em que qualquer movimento nos faz rapidamente regressar à cama.

A minha mãe, julgo que a conheceste, esteve tantos anos assim.
Toda a minha juventude…
… e depois foi ela que se libertou, foi ela que quis quebrar o feitiço da tristeza, foi ela que rebentou com as ervas daninhas e abriu os estores do quarto para que a luz entrasse.

3.
Querido Vítor

O meu pai, e teu amigo, dizia-me sempre que eras um príncipe.

Um tipo diferente dos outros.
Um bom companheiro de trabalho, um bom amigo, uma pessoa com muitas camadas, interesses, livros, fragilidades, utopias.
Alguém com uma tristeza que se pressentia, uma nuvem permanente.

Tinham, o meu pai e tu, um enorme amor pelas mães.

A minha avó Alice a tua mãe Claudina que viveu para ti, que assistiu às tuas estreias, que te criou sozinha, muitas vezes a ter de inventar um mundo sorridente para que não percebesses antes de tempo que a vida pode ser uma merda.

4.
Sabes bem que o meu pai já não está também.
Não me deixou um número de telefone para lhe ligar.

Mas sei que falo por ele.
Sinto até a obrigação de te recordar que és um príncipe.

Diferente da maioria.
Distinto.
Bonito.
Talentoso.
Um senhor.

Tudo coisas que te fazem diferente da maioria de nós, mas que te obrigam à responsabilidade de não desistir.

Tu não.
Pelo que representas, pelo que és.
Pela tua mãe que esgravatou o mundo para que nada te faltasse.

Vem, vamos almoçar.

Disponível posteriormente em Spotify, Apple Podcasts, YouTube e RTP Play.

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