A história de um homem que num dia era empresário e no outro sem-abrigo

Carlos Nunes tinha um negócio que faliu e viveu três anos nas ruas de Lisboa e Setúbal. Conseguiu regressar à vida e é hoje o exemplo de que a infelicidade também não é para sempre.

A história de um homem que num dia era empresário e no outro sem-abrigo

Carlos Nunes tinha um negócio que faliu e viveu três anos nas ruas de Lisboa e Setúbal. Conseguiu regressar à vida e é hoje o exemplo de que a infelicidade também não é para sempre.

1.

O pior dia da vida de Carlos Nunes foi quando estendeu a mão pela primeira vez.

A sua fome era maior do que a raiva e a vergonha.

Estendeu a mão e pediu uma moeda.

Ou um pão sem nada.

2.

É um dia terrível para os que o vivem.

Imagina se acontecesse contigo, se tivesses de estender a mão e pedir por teres fome?

Foi o que aconteceu ao Carlos.

Era dono de uma pequena agência de viagens – a vida corria sem grandes ondas positivas ou negativas, tinha uma casa, um negócio, pagava ordenados.

3.

Veio a pandemia e tentou aguentar o barco.

Antecipou que tudo iria rapidamente ao lugar, só que a crise não se resolveu e a empresa faliu.

Foi levantando o dinheiro até não ter dinheiro.

Foi pagando a casa até não poder pagar mais a casa.

Foi telefonando a amigos até não lhe apetecer ligar a mais ninguém.

4.

Carlos era orgulhoso.

As lágrimas não lhe saíam, mas o embaraço consumia-o tanto que deixou de querer saber de quem gostava.

Não pediu ajuda a ninguém.

Mesmo quando teve de deixar o apartamento e viver na rua.

Primeiro em Lisboa, depois em Setúbal.

5.

Aprendeu a proteger o seu cobertor, a lutar pelo espaço mais quente, a afugentar os perigos, a aproximar-se da melhor sopa.

Deixou de ter vergonha.

Até ao dia em que a recuperou.

Um dia tão marcante como o tal em que estendeu pela primeira vez a mão.

Um responsável pela Cáritas perguntou-lhe se queria trabalhar como segurança na própria organização – Carlos sorriu sem conseguir que a palavra “Sim” lhe saísse da garganta.

No dia em que regressou à vida tinha 62 anos.

Carlos é um exemplo e uma bandeira contra o fatalismo.

No buraco mais escuro também entra luz.

Sempre.

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