1.
O pior dia da vida de Carlos Nunes foi quando estendeu a mão pela primeira vez.
A sua fome era maior do que a raiva e a vergonha.
Estendeu a mão e pediu uma moeda.
Ou um pão sem nada.
2.
É um dia terrível para os que o vivem.
Imagina se acontecesse contigo, se tivesses de estender a mão e pedir por teres fome?
Foi o que aconteceu ao Carlos.
Era dono de uma pequena agência de viagens – a vida corria sem grandes ondas positivas ou negativas, tinha uma casa, um negócio, pagava ordenados.
3.
Veio a pandemia e tentou aguentar o barco.
Antecipou que tudo iria rapidamente ao lugar, só que a crise não se resolveu e a empresa faliu.
Foi levantando o dinheiro até não ter dinheiro.
Foi pagando a casa até não poder pagar mais a casa.
Foi telefonando a amigos até não lhe apetecer ligar a mais ninguém.
4.
Carlos era orgulhoso.
As lágrimas não lhe saíam, mas o embaraço consumia-o tanto que deixou de querer saber de quem gostava.
Não pediu ajuda a ninguém.
Mesmo quando teve de deixar o apartamento e viver na rua.
Primeiro em Lisboa, depois em Setúbal.
5.
Aprendeu a proteger o seu cobertor, a lutar pelo espaço mais quente, a afugentar os perigos, a aproximar-se da melhor sopa.
Deixou de ter vergonha.
Até ao dia em que a recuperou.
Um dia tão marcante como o tal em que estendeu pela primeira vez a mão.
Um responsável pela Cáritas perguntou-lhe se queria trabalhar como segurança na própria organização – Carlos sorriu sem conseguir que a palavra “Sim” lhe saísse da garganta.
No dia em que regressou à vida tinha 62 anos.
Carlos é um exemplo e uma bandeira contra o fatalismo.
No buraco mais escuro também entra luz.
Sempre.
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