1.
A professora Ana Barata Feio dá aulas na ESCO, escola profissional que tem oferecido ao país excelentes profissionais.
Em Torres Vedras é um lugar considerado.
A diretora, Júlia Alfaiate, tornou-se uma referência e, ao longo dos anos, sedimentou um corpo de professores que remam para o mesmo lado, o que é notável.
2.
Há miúdos com dificuldades.
Dificilmente moldáveis, mas que se revelam nas suas capacidades em áreas tão diferentes como a cozinha e pastelaria, turismo,
desporto, animação, massagem, apoio familiar à comunidade ou informática.
Ana Barata Feio é professora de Português na ESCO há muitos anos.
E tinha-se esquecido de uma aluna especial.
Não propriamente esquecido, talvez a palavra seja imprópria, foi-se diluindo a presença de uma miúda viva, inquieta, alegre, desafiadora.
A Sara era tudo isso.
Adorava escrever.
Antes e depois da doença adorava escrever.
3.
A professora Ana estava em casa a remexer papéis quando, no dia 25 de março de 2024, encontrou um poema.
Um poema que a jovem Sara lhe oferecera datado de 25 de março de 2004, precisamente vinte anos antes.
Difícil de acreditar no incrível sincronismo das datas.
A professora voltou a ler o poema – “Eu”
…assim se chamava.
Palavras escritas antes de partir.
Antes de morrer com um cancro que lhe foi fatal.
4.
Era filha única.
De Helena e de um pai ausente.
Quando lhe foi diagnosticado um cancro galopante nunca deixou de ir às aulas, foi até lhe ser impossível.
Num dia de lágrimas confessou à mãe que apenas lhe restava um desejo: fazer os 18 anos e ser maior por uns dias que fosse.
Que depois se deixaria ir sem problemas pois vivera intensamente.
O que é verdade.
Aos três meses já tinha 3 ou 4 dentes.
Aprendeu a andar antes dos outros.
E a Helena deixou de se chamar Helena para ser conhecida como a mãe da Sara, o seu pequeno vulcão com fome de viver.
5.
A Sara foi hoje homenageada.
Estiveram a mãe e outros familiares.
A escola, toda a escola, reuniu-se para a aplaudir.
E todos os anos, para celebrar esta miúda inquieta, a ESCO passará a promover um concurso de poesia aberto a quem queira continuar o seu legado.
6.
O seu último poema dizia assim:
“Eu o que serei?!
O que acredito estará certo ou errado?
O que penso fará sentido? Por vezes sim, outras não.
Quanto mais me descubro, mais me perco.
Quanto mais me conheço, mais me desconheço.
Quanto mais vivo, mais quero viver.
E a morte?! É algo que não me assusta.
É apenas a passagem, e não o fim de tudo.
Eu sou única, sou simples e humilde.
Eu sou espírito, matéria…
Eu sou aquela que quer crescer, mais e mais.
Eu sou aquela que quer aprender, mais e mais.
Eu sou aquela que quer viver, simplesmente.
Sara Morais morreu no dia 20 de julho de 2004.
Fez os 18 anos e teria hoje 40 se não tivesse abalado num dia quente de verão.
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