O filho perfeito que me obrigou a fugir para a casa de banho

Uma história real de um pai e de um filho. Dois anónimos que, num dia igual a tantos outros, ofereceram uma prova de grandiosidade.

O filho perfeito que me obrigou a fugir para a casa de banho

Uma história real de um pai e de um filho. Dois anónimos que, num dia igual a tantos outros, ofereceram uma prova de grandiosidade.

1.

Na pastelaria Santo António, no Lumiar, servem-se almoços.

Há uns dias pedi panados com arroz e sentei-me com o jornal e dois ou três pensamentos que me acompanharam na manhã.

Fiz planos para me isolar de todas as outras mesas.

Faço-o bem.

Gosto de almoçar acompanhado pelas minhas obsessões.

2.

Quando me sentei pedi comida de conforto, mas não imaginei que uns minutos depois tivesse de me levantar para ir à casa de banho.

Duas mesas à direita da minha sentaram-se um pai e um filho.

O pai muito doente arrastou-se até ao lugar.

Os seus pés moviam-se lentamente, pequeninos passos de centímetros que, nem por um segundo, irritaram o filho.

Tinha a minha idade, talvez um pouco menos, quarentas e muitos.

A caminhada durou vários minutos.

3.

O filho pediu por fim o almoço, só para ele.

Pôs um babete ao pai, deu-lhe um beijo na cabeça e sentou-se.

Conversaram no seu conversar.

A voz do filho ouvia-se, a do pai não.

Mas comunicavam, sei que sim porque o filho ria-se nos momentos em que eu não conseguia escutar.

Chegou a comida.

Um bitoque que o filho quase engoliu.

4.

Movimentou depois a cadeira, colocou-se ao lado do pai e pediu a um empregado que trouxesse uma tigela e o pão mais molinho que houvesse.

O filho tirou de uma mala um iogurte e bolachas Maria.

Desfez as bolachas com as mãos e misturou-as no iogurte que já estava na tigela.

Partiu o pão em bocadinhos muito pequeninos.

E o pai, de babete posto, e visivelmente deliciado, começou a abrir a boca de cada vez que o filho se aproximava com a colher de iogurte esmagado com bolacha.

De vez em quanto dava-lhe beijinhos.

Uma vez fez aviãozinho e comeu ele.

Outra disse-lhe, muito baixinho, que o amava.

Noutra queixou-se do pai quase lhe ter comido os dedos.

5.

Saí para a casa de banho e não tenho vergonha de te dizer que chorei.

Pensei nos meus pais.

No filho que fui.

Na minha imperfeição.

E naquele maravilhoso filho capaz de transformar a tristeza numa enorme e grandiosa alegria.

Não perguntei os seus nomes para não os incomodar.

Tenho a certeza absoluta de que um e o outro se tinham esquecido do mundo à volta.

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