1.
Embirrava militantemente com Aura Miguel.
O ar beato, a cara presa num sorriso impossível de desfazer, um olhar acrítico para o papel dos papas e da Igreja, uma superioridade moral que é marca de água dos devotos em Deus e na ideologia.
2.
Só que os anos passaram e o mundo mudou.
A coerência e a previsibilidade tornaram-se valores que estão pela hora da morte…
… valores que, mais do que nunca, devem ser preservados por nos oferecerem uma proteção, um respirar fundo, um amparo do desamparo.
3.
Comecei a ver Aura Miguel com outros olhos.
A ouvir com interesse as suas reportagens, entrevistas ou apontamentos.
A achar graça e a encontrar relevância nos seus recordes – a mais antiga vaticanista, a que mais estórias contou dos últimos quatro papas, a que entrevistou pela primeira vez em exclusivo para Portugal o Papa Francisco, a que dele recebeu uma caixinha de bombons, a escolhida por João Paulo II para escrever uma das estações da via-sacra numa Sexta-Feira Santa na Praça de São Pedro, a que se riu com as anedotas de Bento XVI.
A que abdicou de tudo para ser a que vai, a que disponível, a que vive para contar de Deus e do seu exército.
4.
É uma “freira” num permanente locutório a céu aberto.
Num sacerdócio com a Renascença e as palavras em que acredita.
Desejava ser diplomata e fugir de um destino curto para o tamanho dos seus sonhos.
Não foi, mas foi.
Porque o é, de alguma maneira.
A diplomata de Deus num mundo em permanente desordem.
Um garante de estabilidade, de previsibilidade, de segurança.
5.
Precisamos disso.
Preciso muito disso.
De a ver ao lado de cada Papa, de a ouvir contar-me estórias de gente feliz, combativa ou à procura do caminho para um qualquer apaziguamento.
Reconforta-me procurá-la e ver que ali o tempo não passa.
Ouvi-la numa voz que depois é irreconhecível por ser mais silêncio do que ruído, mais pergunta do que resposta, mais procura do que encontro.
É isto.
Aura Miguel é uma âncora.
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