1.
Não é necessário qualquer pretexto para se falar de António Ramalho Eanes.
Estamos na semana de Abril, mas não seria preciso estarmos na semana de Abril.
Tem 91 anos, mas mesmo que acabasse de fazer os 90, não seria necessária qualquer efeméride.
O General a quem os amigos da infância em Alcains chamavam Tó Ramalho, é o português mais consensual, o único que quando fala o país o escuta como se disso dependesse o seu futuro.
2.
Escrevo e falo-te deste homem porque sim.
Porque não podemos deixar de o fazer.
Porque precisamos de dizer para nós que “está vivo”, que “está cá”, que lhe podemos agradecer.
“Obrigado, Sr. Presidente”.
“Obrigado, Senhor General”.
“Obrigado, António”.
3.
Obrigado por tudo o que nos provou ser possível.
Obrigado por ser um exemplo ético num tempo em que a ética se desvalorizou.
Obrigado por ser um exemplo moral num mundo amoral.
Obrigado pela dignidade, pelo sentido de Estado, pelo amor a Portugal e à República.
Obrigado pela forma como olha para a sua mulher. Como provou que uma relação para a vida não faz sentido sem ser como a vossa – de partilha, mas de liberdade de ação. Manuela Eanes realizou muitas coisas, caminhou muito caminho que era o dela, que foi apenas dela.
4.
E recordo-me de tantas coisas.
De não ter aceitado ser Marechal por querer ser o que os seus camaradas de armas reconheciam, não um militar enfeitado com honrarias.
De não ter aceitado uma segunda reforma a que tinha direito por achar que uma lhe bastava por assim respeitar melhor os portugueses.
Por ter feito um doutoramento depois de ter sido Presidente da República, inscreveu-se por desejar aprender até ao último dia da sua vida.
Por ter-se disponibilizado a morrer durante a pandemia se faltassem ventiladores. Na sua cabeça seria absurdo gastar recursos que poderiam ser necessários para alguém mais jovem.
Pelo seu sentido de humor. Quando o ouvi contar uma piada pela primeira vez não entendi se estava a falar a sério ou a brincar, como poderia imaginar que gostava de rir e de fazer rir?
Pela humanidade, por gostar de pessoas, da vida e deste país estranhamente adorável.
Obrigado, António Ramalho Eanes.
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